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As relaes entre f e razo (I)

Fonte: http://contraimpugnantes.blogspot.com/2009/11/as-relacoes-entre-fe-e-razao-i.html

Sidney Silveira
Um amigo apresentou-me noutro dia o vdeo de uma aula de filosofia que muito bem poderia integrar a coleo Primeiros e ltimos Passos (ou Definitivos Tropeos), na qual o professor, referindo-se a Santo Toms, minimizava a problemtica das relaes entre f e razo como se fora coisa de somenos importncia. Na verdade, trata-se de um dos mais espinhosos problemas filosficos e teolgicos, que somente alcanou uma soluo satisfatria e definitiva com Toms de Aquino, como veremos.

Algumas posies equvocas foram esboadas, antes e depois do Aquinate. Destaquemos as principais:

a) Oposio irredutvel entre f e razo. Aqui se incluem duas correntes extremadas, ambas condenadas pela Igreja: 1- a do fidesmo, em que a razo vista como um perigo para a f, na medida em que os mistrios so de todo inescrutveis; 2- e a do racionalismo, que defende um duplo horizonte de verdades (as de f e as de razo) que nada tm de comum entre si.

b) Harmonia entre f e razo. Aqui, tambm vemos duas posies: 1- a que se baseia na distino e complementaridade entre ambas, 2- e a que se baseia na separao entre as duas. Para defensores dessa ltima idia, haveria uma espcie de harmonia acidental (e no essencial) entre a razo e a f. Esta posio problemtica acabou desterrando a f de seu habitat, levando-a ao mbito do mero sentimentalismo ou, ento, transformando-a numa pura e simples moral. Ou ainda em uma terceira vertente chegou-se a defender a possibilidade de provar os artigos da f por meios racionais.

Como diz M. G. Manser, O.P, no j mencionado livro A Essncia do Tomismo, obra magistral que nos orienta no presente texto, a m-interpretao da frmula Credo ut intelligam de Santo Anselmo que, em verdade, j havia sido formulada por So Pasccio Radberto levou a que muitos considerassem se tratar de um avano da f em direo ao conhecimento. Em suma, essa viso levou ao perigo de imaginar que o catlico deveria passar da f ao saber demonstrativo sobre a f. Isto gerou uma confuso trplice.


1- Com relao origem da f;
2- Com relao ao conceito de f;
3- Com relao ao domnio da f.

Vejamo-las, tendo como base o precioso trabalho de Manser:

1- Com relao origem da f

Em primeiro lugar, deve-se frisar que a razo e a Revelao partem de distintas fontes de verdade. Quem submete uma outra ou amplia o campo de uma em detrimento do da outra no faz a distino correta. Estes casos extremos podem ser ilustrados, na Primeira Escolstica, pelo monge ingls beneditino Alcuno (735-804), que gostaria de provar at mesmo as questes filosficas por meio da Sagrada Escritura; e, em seus antpodas, por Rbano Mauro (776-856), que pretendia reduzir toda a Sagrada Escritura s sete artes liberais.

Escoto Ergena (810-877), por sua vez, leva o Credo ut intelligam a uma interpretao rigorosssima confusamente influenciada pelo racionalismo. Para ele, todo e qualquer conhecimento da verdade pressupe a f. L-se num trecho do seu De Divisione Natur: Ex ea enim omnem veritatis inquisitionem initium sumere necessarium est. No sculo seguinte, seguem esta posio Roger Bacon e Raimundo Llio.

Hugo de So Vtor (1096-1141), outro autor importante, no possui uma s definio de filosofia (dentre as muitas que nos legou) que a distinguisse corretamente da f. E a mesma confuso compartilhada por John de Salisbury (1120-1180), que mistura os mbitos da f e da filosofia ao dizer que a origem da filosofia ... a Graa!

2- Com relao ao conceito de f

Quando a inteligncia conhece uma coisa, pode-se dizer que tem dela uma espcie de viso (visum) intelectiva, pois a inteligncia assente ao objeto do saber porque tem diante de si uma verdade evidente. O objeto da f, por sua vez, no parte de nenhuma evidncia (e sim de uma non visum), pois se apia na autoridade divina, na Revelao. Para os adeptos do Credo ut intelligam que pretendiam transformar a f [no me refiro aqui teologia!] em cincia, era uma pedra de tropeo a passagem de So Paulo (em Hb. XI, 1) na qual o Apstolo diz que a f uma certeza daquilo que no se v. Em suma, se se considera como objeto da f o que por si evidente ou demonstrvel, a coisa se complica enormemente. Nem mesmo o prudente Pedro Lombardo (1100-1160) passa por este problema sem alguma confuso, pois admite uma espcie de conhecimento interno da f (em III, Sent., 24, 3).

O j mencionado Hugo de So Vtor simplesmente considera a frase paulina incompleta (em De Sacram. Christ. Fidei, I) e distingue trs classes de crentes: a) as pessoas simplrias que crem piedosamente, mas sem conhecimento (sola pietate credere eligunt); b) outros que fundamentam racionalmente o contedo daquilo em que crem (alii ratione approbant quod fide credunt); c) e os que tm a certeza da f a partir da pureza da inteligncia (puritas intelligenti apprehendit certitudinem)*. Veja-se que estamos a perigosamente prximos da gnose, ou seja, de uma espcie de salvao pelo conhecimento.

Ricardo de So Vtor (? 1173), discpulo de Hugo, chega a lamentar em seu De Trinitate que, em favor da divina Trindade, se aduzam apenas provas de autoridade, e no de razo.

O erro no escapou nem mesmo a autores proclamados santos, como o prprio Anselmo de Canturia, que no promio do seu Monologium afirma a necessidade de provar as verdades da f. Tal intento no se limita Trindade, mas a tudo o que cremos de Cristo (omnia qu de Christo credimus), e sem apelar Sagrada Escritura (sine Scriptur auctoritate), mas com razes necessrias (necessariis rationibus ex necessitate). Com isto, Anselmo comete um erro grave: simplesmente exclui o verdadeiro objeto formal da f, que a autoridade divina, e o identifica com o saber humano. E o mesmo faz Abelardo** (1079-1142), que comps o tratado De Unitate et Trinitate por insistncia de discpulos que pediam razes filosficas para sustentar as doutrinas da f.

Em suma, a tentativa de comprovar os artigos da f com razes filosficas permeia a obra de quase todos os pensadores de escol, durante um largo perodo histrico. Alguns, para aduzir um argumento corroborante s suas teses, chegaram a afirmar que os pagos tinham conhecido racionalmente a Trindade tese a que nos dedicaremos no prximo texto sobre o tema.

Veremos como todos esses erros ou heresias, sem nenhuma exceo, foram refutados por Santo Toms cuja doutrina teolgica foi depois consagrada pelo Magistrio da Igreja e acolhida por inmeros Papas em srie. A comear pelo seguinte princpio do Aquinate. As verdades da f crist no podem ser contrariadas pelas verdades [adquiridas] pela razo (quod veritati fidei christian non contrariatur veritas rationis)***. Caminhemos aos poucos, que o tema assim o exige.


* Cfme. De Sacram. Christ. Fidei, c. 4.
** Se Deus quiser, ainda antes do Natal deste ano, a Stimo Selo apresentar uma obra magna de So Bernardo que eu recomendo a todos: As Heresias de Pedro Abelardo, em edio bilnge. Veremos, na Apresentao ao livro, a verdadeira face teolgica, filosfica e moral de Abelardo autor to incensado por historiadores e filsofos que hoje parasitam a Igreja, seja em universidades catlicas, seja em grupos de intelectuais ligados a ordens religiosas ou at mesmo em Seminrios...
*** Suma Contra os Gentios, I, 9.

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