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PANDEMIA, O QUE DIZER?

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A humanidade sempre mostrou sua autonomia e segurança em suas descobertas, em especial àquelas argumentadas pela ciência. Desde que o ser humano descobriu-se um ser pensante, passou a ser movido por perguntas que careciam de respostas e, nesta busca incessante, encontra-se uma humanidade caracterizada por um progresso incontestável: revelações, conquistas, invenções, até chegarmos a uma ciência que definia-se como portadora da verdade e da sabedoria. No entanto esta mesma ciência que encanta, que faz as coisas serem velozes, magistrais e belas, que consegue mudar a vida segundo seus critérios (eugenia), agora depara-se com um inimigo invisível, silencioso e temeroso. Estaria a ciência questionada? Assim, começamos a querer pensar o futuro: o que virá depois do que estamos vivendo? Como será o mundo? Na verdade, não estamos sabendo lidar com o presente, defrontamo-nos com um paradigma: se nem o mais pessimista em história da humanidade previa esta pandemia, também não encontramos o mais otimista para dizer que tudo será mais humano, mais verdadeiro e transparente.

Falávamos tanto da perda da dimensão humana na convivência. Porém, quando podíamos estar juntos não tínhamos tempo. Agora queremos estar juntos e somos impedidos, pois neste momento a maior prova de amor é ficar longe. Quem imaginaria o padre e o pastor dizendo: “fiquem em casa”? Igrejas vazias como sinal e desafio. “Idosos, crianças, grupos de risco, cuidem-se”: eis a frase mais dita nestes últimos 90 dias nos cinco continentes. As manchetes de cada país, provindas dos múltiplos meios de comunicação, não poupavam pânico e números. Imagens de incontáveis vidas humanas colocadas em valas, transportadas em caminhões, ou esperando em câmara fria, passaram a ser cenas cotidianas.

As famílias tiveram que aprender a conviver com duas mortes: a do ente querido que se vai sem pelo menos poder velar e a da família que fica sem poder despedir-se pela última vez. Se lidar com a morte numa situação normal da existência já é doloroso, imagine saber que alguém que se ama será sepultado sem velório, sem pessoas e sem adeus. O luto foi redescoberto na pior e mais cruel forma possível.

Diante deste cenário, o que esperar? Primeiro, devemos ter a consciência de que o mundo está verdadeiramente doente. A pandemia do coronavírus (COVID19) deu esse recado. A enfermidade do mundo é crônica, e se materializa no vírus do ódio, da indiferença, do medo e da ganância. Antes mesmo desta realidade brutal pela qual passamos, quantas pessoas já morriam nas filas de espera nos hospitais? Quantos já padeciam de fome? E a célula maligna da corrupção? Basta ver que nem mesmo o dinheiro designado para salvar vidas das vítimas do COVID19 foi poupado, até este foi desviado. Existe vírus pior que o da insensibilidade? É nos momentos de calamidade que se percebe como a sociedade está estruturada. Devemos procurar uma nova identidade para esta mesma sociedade que muda radicalmente diante de nossos olhos. Portanto, acredito que o grande ensinamento desta pandemia está sendo descrita pelo comportamento das pessoas, pois mostrou de fato quem somos. Para uns, isso tudo não passa de um plano mundial com jogos políticos e econômicos e, nesta disputa, precisa-se de uma vítima que tem rosto, mas que não tem nome. Para outros, um fato real que requer cuidados, atenção e zelo à vida. Para um terceiro grupo, prevalece a indiferença, não sabem se é verdade ou não, não acreditam e não aceitam as orientações dos profissionais da saúde e vivem  cada dia como se fosse o último (para esses até festas pode-se fazer); existe ainda um outro grupo, esperando a oportunidade para dar golpes, superfaturam o que é essencial, transformam respiradores em cifras que valem mais que uma vida, chegando a vender o que não existe. Tudo converge para a constatação de que a existência dos humanos em sociedade tem predadores e vítimas com a mesma identidade. Para estes, nem as valas coletivas abertas esperando por corpos sucumbidos pela contaminação, depositados em caixões, os impressiona ou sensibiliza. Este vírus maligno se espalha silenciosamente. Mas, resta um outro grupo, ímpar, que nos enche de esperança: são pessoas que trabalham no silêncio, sacrificam seu tempo, distanciam-se da família para cuidar e salvar vidas de pessoas desconhecidas, choram  e se compadecem com a morte destes; lutam com as armas que possuem para guerrear com o inimigo e não transformam a morte em espetáculo. Junto a estes, encontramos milhares e milhares de anônimos que vão às nas ruas para dar pão aos famintos, agasalhar quem tem frio, abrigar o abandonado, medicar o doente e devolver esperança para quem há muito tempo já estava desprovido deste sentimento. Anônimos que olham o outro como parte da humanidade e que acreditam no outro humano. Precisamos rever nossos conceitos subjetivos, preocupamo-nos demais em explicar tudo e, nesta ânsia de teorizar, estamos esquecendo de viver o presente. Existem momentos em que a esperança declina e atinge o seu ponto mais baixo, são os momentos em que exaustos, ficamos por ver disputas políticas, cargos em jogo e a indiferença à vida. Compreendamos primeiro, a linguagem de Deus, do mundo e da sociedade para depois olharmos para o como e por onde caminhar. Se hoje somos guiados pelas descobertas do dia-a-dia, que o futuro seja a esperança de que o presente foi adequadamente semeado.

 

Pe. Geraldo Macagnan

Diretor Instituto Sapientia de Filosofia

Mestre em Filosofia Contemporânea

 

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