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ENOMENOLOGIA DA VIOLÊNCIA EM HEIDEGGER

ENOMENOLOGIA DA VIOLÊNCIA EM HEIDEGGER

Daniel Goulart da Silva1 Júnior Rodrigues dos Santos2

Resumo: No pensamento de Heidegger, a violência não seria uma ação externa ao homem, mas antes, um ato que perscruta seu interior. Buscando-se compreender a essência da violência, instiga a investigar as terminologias dos conceitos gregos para que, obtenha-se significados precisos e fiel, aos que, os primeiros filósofos buscaram dizer. Dado as interpretações, entende-se no pensamento Heideggeriano o ofuscamento que ocorre do ente sobre o Ser, dominando-o, submete-o, a sua imanência, ao desejo do homem técnico que, coisificando aquilo que o vigora: Bondade, Verdade, Beleza e Unidade, o torna distante de si e dos outros.

Palavras-chave:  Ente. Existência. fenômeno. Ser. Violência.

Para entender o que é „violência‟ no pensamento Heideggeriano, é necessário compreender algumas terminologias dadas por Heidegger. Tais como: Phỳsis, Logos, Fenômeno, Ente, Ser, Deinón e Dasein. Trazendo à luz da razão o sentido etimológico originário dos termos em grego. Ao dizer o que a coisa é, e qual sua natureza, referencia-se ao termo Ser, que os filósofos pré-socráticos denominaram de essência constitutiva da „coisa‟. E não, num sentido habitual como meio ambiente ou objetos estudados pela física moderna. Portanto, a Phỳsis é o próprio Ser que se torna observável pelo ente. Um dos significados atribuídos a palavra „natureza‟, diz respeito ao “desabrochar, o emergir de dentro de si mesmo […] aquilo que ao abrir-se, se manifesta em tal desdobramento [...]” (HEIDEGGER, 1987, p. 22-23). Esse manifestar-se do Ser através do ente, mostrando-se como é a nós, possui sua conceituação do grego phánesthai, que significa trazer a luz do dia, pôr no claro. Desse conceito deriva o termo fenômeno, que é aquilo que se apresenta como tal. Nessa fenomenologia de Heidegger evidencia-se uma relação com o logos.

 

O significado básico de Logos é discurso […] interpreta-se logos por razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proposição […] como discurso, logos diz […] revelar aquilo de que trata o discurso. O logos deixa e faz ver, aquilo sobre o que se discorre e o faz para quem discorre. (HEIDEGGER, 1987, p. 62).

 

Como no discurso, o que se diz, deve ser claro e evidente para aquele que ouve, e que possa compreender o que está sendo transmitido, ou seja, deixar revelar o que se esconde no discurso. Do mesmo modo, o ente deve „deixar e fazer ver‟ aquilo que está escondido, isto

1  Acadêmico do 4ª período de Filosofia – ISP 2  Acadêmico do 4ª período de Filosofia – ISP

é, o seu Ser, que é revelado no ente, consistindo na verdade, que é o vir a luz; uma abertura do ente para que o Ser se revele. Portanto, o Ser que é revelado pelo ente, é designado por Heidegger de ser-aí ou Dasein; o homem é sua essência revelada, ou seja, sua existência com possibilidade de atuar e escolher; ser-aí é também o ser-no-mundo, de relação com as coisas. Neste contexto, poderse-á buscar a origem da violência no pensamento fenomenológico de Heidegger. Pois, sendo a existência do homem a sua essência, a violência como prática de seu agir também o é. Sendo a violência parte constitutiva da existência do homem, é necessário saber o que ela significa na representação do Ser. Para isso, Heidegger (1987) recorre a experiência grega poético-pensante de Sófocles que diz “[…] nada além do homem há de estranho”, atribuindo o termo tò deinótaton.

O homem é apenas em uma palavra: tò deinótaton, o que de mais estranho há. Este dizer concebe o homem pelos extremos limites e mais profundos abismos do seu Ser. Uma vez, deinón significa o terrível, mas não os pequenos terrores e, muito menos, tem aquele significado decadente, parvo e inútil com que hoje se usa entre nós a palavra, quando se diz „terrivelmente engraçado‟ (furchtbar niedlich). Deinón é o terrível no sentido do vigorar imperar modo imponente (-s überwältigende Walten), o que provoca, de modo igual, o medo pânico (panischer Schrecken ), o verdadeiro pavor (Angst), como o temor (Scheu) discreto, concentrado e vibrando em si mesmo. A imponência (-s Gewaltige), o vigorar de modo imponente (-s Überwältigende) é o caráter essencial do próprio vigorar, de modo imponente (-s Überwältingende) é o essencial do próprio vigorar (s- Walten). Onde este irrompe, pode manter em si o seu poder imperioso. Todavia, não se torna oir isso mais inofensivo, tornando-se antes ainda mais terrível e distante. (HEIDEGGER, 1987, p.165-166).

O que Heidegger está afirmando, na verdade, é que, enquanto o Ser estava na imanência, havia o seu reconhecimento e harmonia com o ente. Entretanto, houve um distanciamento entre eles, ocasionado pelo „abafamento‟ do Ser pelo ente, e como consequência, a existência do ser-aí não seria possível; não se reconhece mais, quem ele é, pois deixou de pensar. Pois, “pensar e ser é o mesmo” (Parmênides). Neste sentido, Pascal diz: “O homem é feito para pensar, e toda sua dignidade e todo seu mérito e todo o seu dever consistem em pensar corretamente.” (PASCAL apud Buzzi, 2002, p.113). Deixar de pensar é não levar em consideração as propriedades do Ser. Pois, é próprio da essência do homem a bondade, verdade, beleza e unidade. Com esse ato de não-pensar, decorre a falta de compreensão dessas propriedades. Por isso, Heidegger entende, que o ente que não pensa, não consegue gerar um (re)conhecimento do Ser. A violência na visão fenomenológica Heideggeriana, consiste sobretudo, numa ação contra a própria essência, isto é, uma tensão do ente sobre o Ser; não se trata de práticas

externas, mas internas. O homem, atrelado aos seus desejos, dominou o querer imponente do Ser, do mostrar-se existente, e fez dele objeto da técnica.

A missão, o destino do homem atual, do homem da técnica, é “submeter-se à Terra” ao invés de querer operar o contrário, ou seja, submeter à Terra à sua vontade, ao seu querer. Submeter-se aqui significa: obedecer, saber ouvir. Só quando o homem encontra-se no vigor imponente, violento do ser, é que ele encontra-se a si próprio. (GALL, 2017, p. 36).

 

As próprias características do Ser que o vigora, e o faz maravilhar-se como aquilo que ele é enquanto ente, pela técnica foram transformados em objetos criados pelo homem, ou seja, por acreditar que foi ele o criador daquilo que o vigora, além de coisificá-las, distanciase de sua própria essência. Nutrindo-se de uma falsa verdade, torna o querer imponente do Ser, em querer imponente do próprio ente, isto é, seu desejo de impõe-se sobre o Ser, resultando numa violência primeva – esquecimento da essência3. O homem, não sabendo quem ele é, não usará mais a razão. Pois, pensar é pensar nas qualidades do seu Ser, a essência de sua existência. deixando de lado essa faculdade poderá ocorrer uma ação externa, como o suicídio.

De fato, nossos olhos e ouvidos, estão no turbilhão do mundo, desde sempre entulhados de sons, ruídos e imagens indistintas; e até o pensamento, clareira de luz, se emaranha no cipoal de preconceitos. Tudo isso nos envolve numa névoa que embacia e oculta. Não vemos claro nem ouvimos nitidamente nosso ser e, consequentemente, quais criancinhas indecisas, não conseguimos realizar um projeto consistente de existência-no-mundo. (BUZZI, 1991, p. 25).

A faculdade de pensar, traz uma relação do Ser e do ente. Percebe-se que atualmente a técnica tem tomado o lugar do Ser, substituindo-o pela criação mecânica, fazendo dela o real do seu existir. Provocando um estado de inercia; sendo a existência do homem a sua essência; a essência que é o Ser, e; Ser é o pensar. Este, que é o princípio movente da inquietação do homem que o leva ao espantar-se e ao maravilhar-se com o que ele é, perde-se. No entanto, o homem tem criado objetos que não tem vida, com objetivo de substituir as características do Ser e abafar a inquietação que o conduz à consciência do Ser. Fazendo acreditar que, viver a técnica é ascensão e vida concreta. O uso da racionalidade que deveria conduzir ao conhecimento, nos direciona a nossa própria decadência. (BUZZI, 1991).  Nesse sentido, mesmo com a criação de máquinas, em forma e personalidades humanas como robôs, por exemplo, nunca será possível a existência de um pensar nelas, por

3  HEIDEGGER, Introdução à Metafísica, 1987, p. 172-173.

não existir a inquietação ao maravilhar-se que é próprio de quem pensa. Portanto, o homem conseguirá retorna ao estado de Ser, quando voltar a pensar, pois pensar gera o saber, o conhecer e o despertar.

 

Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! (SAINT-EXUPÉRY, 2015 p. 69.).

REFERÊNCIAS

BUZZI, Arcângelo. Filosofia para Principiantes. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.

_____A Identidade Humana. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

GALL, Felipe. Esboço de uma Fenomenologia da Violência Segundo Heidegger. Artigo. RJ: 2017. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/30445/30445.PDFXXvmi=. Acesso em 02/09/18 as 21:00

 

HEIDEGGER, M. Introdução a Metafísica. Lisboa: Instituto Piaget, 1987.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine, O pequeno Príncipe. 51ª ed. RJ: Agir, 2015.

 

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