1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>
Erro
  • XML Parsing Error at 1:131. Error 9: Invalid character

A VIOLNCIA CONTRA SI PRPRIO SUICDIO NA OBRA O MITO DE SSIFO DE ALBERT CAMUS

GARCIA, Diego1, e BELISRIO, Gabriel2.

Resumo: O presente artigo busca primeiramente analisar quais so as motivaes de quem suicida-se, partindo do ponto da cotidianidade do homem contemporneo, cotidianidade esta que, de forma sutil, angustia e escraviza. A partir do momento que a pessoa toma conscincia do absurdo de sua existncia, percebe a perda do sentido de viver, optando pelo reestabelecimento ou o suicdio. O problema que o artigo procura resolver se apresenta da seguinte maneira: Diante do absurdo da existncia, o suicdio justificvel? Atravs dos vrios argumentos que Camus apresenta, alm da fundamentao de outros autores, buscar-se responder afirmativamente ou negativamente esta problemtica.

Palavras-chave: Suicdio. Sentido existencial. Absurdo. Reestabelecimento.

INTRODUO

Segundo Albert Camus3, [...] s existe um problema filosfico realmente srio: o suicdio. Julgar se a vida vale ou no vale a pena ser vivida responder pergunta fundamental da filosofia. (CAMUS, 2017, p. 19). No podemos ser ingnuos de achar que com esta afirmao Camus exclui toda a tradio filosfica, isso porque era formado em filosofia, que pressupe extremo respeito e compromisso por esta, alm de se utilizar de vrios filsofos e correntes filosficas para justificar seus argumentos. Pelo contrrio, com esta frase que abre a obra O Mito de Ssifo (1942), busca chamar ateno para uma realidade digna de estudo, porm pouco abordada na filosofia. O suicdio o objeto de estudo, porm no o ponto de partida. Este artigo percorre as motivaes propostas por Camus que levam ao suicdio, tendo presente a pergunta que ele mesmo se fez: H uma lgica que chegue at a morte? (CAMUS, 2017, p. 24). Parte-se da cotidianidade, esta que, segundo Camus, acontece naturalmente sem que o homem se d conta at o dia em que ele se pergunta sobre o porqu de tudo o que se faz na vida, e que aps ter

1 Acadmico do terceiro perodo de Filosofia ISF. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 2 Acadmico do terceiro perodo de Filosofia ISF. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 3 Foi um jornalista, filsofo e escritor francs nascido na Arglia, em 1913. Sua infncia marcada por uma vida de misria, na qual enfrentou a perca do pai com apenas um ano por conta da guerra. Suas obras muitas vezes colocam traos de sua biografia, demonstrando assim a concepo de vida absurda que sempre carregou consigo. Teve grande influncia de Nietzsche, Kafka e Dostoievsky.

conscincia de uma vida maquinal que se leva possvel se deparar, ento, frente a frente com o absurdo4. Posteriormente discorre acerca da percepo do mundo como absurdo, que leva o ser humano muitas vezes ao niilismo5. A constituio do homem frente ao belo tomada por estupor, j diante do nada (niilismo), invadido pelo horror. O homem no deveria dar outra resposta a este [...] silncio irracional do mundo. (CAMUS, 2017, p. 39)? Buscar-se-o respostas. Diante desse horror que o ser humano tem frente ao mundo absurdo se apresentam dois caminhos possveis: Suicdio ou restabelecimento. Segundo Gouliane, [...] este conflito exige uma soluo positiva (aceitao da existncia) ou negativa (no aceitao) [...] (GOULIANE, 1969, p. 144). Diante disso apresenta-se a proposta de Albert Camus frente a problemtica da justificao do suicdio, atravs de sua retomada do mito grego de Ssifo, como concluso do artigo.

A COTIDIANIDADE DO HOMEM CONTEMPORNEO

O ponto de partida nesta busca pelas causas do suicdio na concepo de Camus se d no prprio cotidiano. Este que, olhado de maneira superficial pode parecer inofensivo, na filosofia de Camus a causa primeira do encontro com o absurdo da existncia. Arcangelo Buzzi afirma que [...] a cotidianidade o modo banal? do mundo. Ela mostra que a existncia humana se perfaz numa srie de afazeres que nos plantam e nos enrazam na terra. (BUZZI, 1991, p. 44). Quando o cotidiano se torna banal, e no mais o homem se v naquilo naquilo que faz, corre a [...] terrvel ameaa da perda de nosso ser. (BUZZI, 1991, p. 44). Desta maneira, a vida deixa de ter brilho, consequentemente, como afirma Camus, [...] todos os dias de uma vida sem brilho o tempo nos leva [...], trata-se de morrer. (CAMUS, 2017, p. 27). Nietzsche em sua obra A Gaia Cincia (1882), dedica um aforismo para refletir o que a cotidianidade representa, ou, se ela realmente representa o ser humano. Se indaga: O que representa a histria de cada dia para voc? Olhe para seus hbitos, nos quais ela consiste: so eles inmeras pequenas covardias e preguias ou de sua valentia e razo criadora? (NIETZSCHE, 2012a, p. 185). 4No fora, meramente, apresentado o conceito deixando-o vago, no decorrer do artigo ser desenvolvido o que Camus entende por absurdo. 5 Ponto de vista que considera que as crenas e os valores tradicionais so infundados e que no h qualquer sentido ou utilidade na existncia.

Camus, que como j dito tem fortes influncias de Nietzsche, continua sua reflexo alegando que o homem pode muito bem viver em sua cotidianidade, carregada de automatismo e lassido, sem deparar-se com o absurdo, porm, como muito bem presenciado na sociedade, os cenrios podem desabar. Compreende-se melhor com as prprias palavras de Camus:

Cenrios desabarem coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritrio ou na fbrica, almoo, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda tera quarta quinta sexta e sbado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o por qu e tudo comea a entrar numa lassido tingida de assombro. [...] a lassido est ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento de conscincia. (CAMUS, 2017, p. 27).

Como percebe-se, o dar-se conta (antrops) o fator determinante. Como afirma Jaspers, [...] a conscincia no um ser como o da coisa, mas um ser cuja essncia estar voltada para significar. (JASPERS apud BUZZI, 1991, p. 54). Portanto, no ato de conscincia da cotidianidade maquinal e carregada de lassido busca-se dar significado existncia, porm o homem no o encontra. Neste momento, segundo Camus, a realidade humana se depara frente a frente com o absurdo.

O MUNDO ABSURDO

Camus no busca definir o conceito de absurdo, o que faz trata-se de uma [...] enumerao dos sentimentos que podem conter absurdo. (CAMUS, 2017, p. 28). Admite que o divrcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenrio propriamente o sentimento de absurdo, sendo que [...] ele nasce desse confronto entre o apelo humano e o silncio irracional do mundo. (CAMUS, 2017, p. 39). Mais claramente, segundo Camus, s absurdo algo em virtude da desproporo entre sua inteno e a realidade que o espera, da contradio que pode se perceber entre suas foras reais e o objetivo a que ele se prope. Por exemplo, se afirmar que um homem virtuoso desejou sua prpria irm assegurariam que isso absurdo. Realmente o , pelo fato da contradio existente entre ser um homem virtuoso e desejar a prpria irm. Como mostrado, o absurdo no um conceito definvel, no pode ser esgotado, porm pode ser observado e vivido todos os dias. Camus afirma que o absurdo [...] s tem sentido na medida em que no seja admitido. (CAMUS, 2017, p. 42). Buscar-se- ento entender o porqu.

Segundo ele, um homem ligado ao absurdo est ligado a ele para sempre, sendo que este supe uma ausncia total de esperana. Diz ento que [...] um homem sem esperana e consciente de s-lo no pertence mais ao futuro. (CAMUS, 2017, p. 42), pois o absurdo [...] acaba, como todas as coisas, com a morte. (CAMUS, 2017, p. 41). Com a morte, na concepo de Camus, o homem depara-se com o nada, negando assim uma possvel transcendncia, por isso, aqueles que buscam ter esperana, justamente para fugir deste absurdo, buscam-na atravs da religiosidade, no admitindo o absurdo. Esse comportamento considerado um niilismo, conceito do qual Camus herda de Nietzsche. Faz-se necessrio, neste artigo, entrar neste conceito profundo, porm de maneira no pormenorizada, tomando como justificativa o que fala o prprio autor de Zaratustra: Encaro os problemas profundos como um banho frio, entrando rapidamente e saindo rapidamente. (NIETZSCHE, 2012a, p. 257).

NIILISMO E SUPERAO DA METAFSICA

No aforismo 347 da obra A Gaia Cincia, Nietzsche diz que o niilismo [...] sempre mostra, acima de tudo, a necessidade de f, de apoio, amparo, espinha dorsal. (NIETZSCHE, 2012a, p. 214). Isto soa estranho, pois Nietzsche utiliza-se do termo niilismo com uma conotao totalmente diferente da utilizada at ento. Segundo o dicionrio ABBAGNANO, [...] esse termo indica em geral uma concepo ou uma doutrina em que tudo os entes, as coisas, o mundo e em particular os valores e os princpios negado e reduzido a nada. (ABBAGNANO, 2007, p. 829). Nietzsche leva o termo por um caminho um pouco diferente, se referindo a ele como uma negao da vida. Para Scarlett Marton consistiria na [...] total ausncia de sentido provocada pelo esboroamento dos valores transcendentes. (MARTON, 1993, p. 65). Portanto, chama de niilista aquele que pauta a vida por valores, aqueles que tem princpios, ou de outro modo, que no deixam a vida levar, mas sempre a freiam. Com isso, Nietzsche refere-se principalmente aos cristos, estes que acreditam em um fim ltimo, pautam a vida por valores e princpios e que freiam seus instintos tidos como maus para a obteno da vida eterna. Isso gera a perda da vontade de potncia, pois se nega o real em busca de um ideal como afirma Oswaldo Giacoia:

No o niilismo a causa da decadncia cultural, antes pelo contrrio: ele o resultado necessrio de um lento, at insuspeitado, processo de decadncia e perda de potncia, pois na medida em que se aprofunda, so extradas as consequncias

lgicas inexorveis das pretenses sustentadas pelos valores axiais, cujo contedo se esvazia. (GIACOIA, 2013, p. 65).

O homem tem grande desejo de segurana e salvao que apenas os valores absolutos podem assegurar. Nietzsche retoma o prprio Plato na obra O Crepsculo dos dolos (1889), acusando-o de desprezador do mundo da vida, pois a verdade estava presente no mundo inteligvel e o objetivo do mundo sensvel era preparar a alma para chegar a verdade. Para Nietzsche este um grande exemplo de niilista, assim como tambm todas as utopias. A partir do momento que lana sua crtica aos valores absolutos inicia sua filosofia do martelo, onde busca mostrar [...] que a viso crist no a nica interpretao do mundo, s mais uma. (MARTON, 1993, p. 65). Portanto, interpretar o mundo como absurdo totalmente justificvel, tal como aqueles que creem em uma vida eterna.

REESTABELECIMENTO OU SUICDIO

At ento, para Camus, o nico dado que se tem o absurdo, absurdo este que [...] no est no homem [...] nem no mundo, mas na sua presena comum. (CAMUS, 2017, p. 41). Basta ser reconhecido, o que o torna [...] uma paixo, a mais dilacerante de todas [...] (CAMUS, 2017, p. 34). Um homem que se faz consciente do absurdo est ligado a ele para sempre, o que resta saber [...] como livrar-se dele e se o suicdio deve ser deduzido desse absurdo. (CAMUS, 2017, p. 42). Nesta lgica do absurdo podemos muito bem utilizar de uma metfora para torn-lo mais compreensivo, e desta forma ir enveredando para a concluso do problema. Partindo do pressuposto que uma das paixes de Camus era o futebol, chegando a atribuir tudo que sabe sobre moral e as obrigaes a ele, utilizemos do mesmo. A existncia humana pode ser comparada a uma partida de futebol na qual o time entra sabendo de sua derrota. Este o absurdo. Viver sob este cu sufocante, ou no caso, esta partida fadada derrota sufocante, [...] nos obriga a sair ou ficar. (CAMUS, 2017, p. 40). A questo a saber , como se sai, no primeiro caso, e porque se fica, no segundo. Uma resposta para isso o suicdio, isto inevitvel, porm o que devemos perguntar se as motivaes para continuar nesta partida que seus jogadores esto determinados derrota podem ser maiores do que as que os impelem a desistir.

Camus apresenta um personagem, Ssifo, qui simptico para alguns leitores, que nutria um grande amor pela sua vida, tanto que enganou a morte mais de uma vez, at que pela interveno dos deuses Mercrio segurou o audaz (Ssifo) pelo pescoo e, tirando-o de suas alegrias, trouxe-o fora de volta para o inferno. (CAMUS, 2017, p. 122). L os deuses buscaram lhe atribuir o castigo mais terrvel possvel, que foi rolar uma rocha incessantemente para o alto de uma montanha, de onde tornava a cair. Pensaram os deuses que [...] no havia castigo mais terrvel que o trabalho intil e sem esperana. (CAMUS, 2017, p. 121). Pode-se ento relacionar a cotidianidade, qual est submetido o homem, com o castigo imposto Ssifo. O dia a dia seria intil e sem esperana? Porque Ssifo simplesmente aceitou sua pena? Porque no se suicida? Porque os homens muitas vezes, diante do absurdo da existncia, tal qual o absurdo da existncia de Ssifo, se suicidam? Muitas outras indagaes poderiam ser levantadas diante dessa relao de Ssifo com os seres humanos, porm respondamos s uma: Diante desse absurdo da existncia, o suicdio justificvel? Num primeiro momento, analisando a condio humana e a condio de Ssifo podese muito bem responder que sim, porm o mito segue. Camus afirma: Assim como, em certos dias, a descida feita na dor, tambm pode ser feita na alegria. (CAMUS, 2017, p. 123). Percebe-se no texto de Camus que em nenhum momento afirmou que o absurdo exclua a felicidade, pelo contrrio, [...] a felicidade e o absurdo so dois filhos da mesma terra. So inseparveis. (CAMUS, 2017, 123). Portanto, deve-se jogar a partida de futebol, fadada derrota, pela simples alegria do jogo, pelo simples prazer de chutar a bola, indiferentemente ao resultado. Se preciso for preciso gritar aos quatro ventos o que gritou Zaratustra: Minha felicidade deve justificar a prpria existncia! (NIETZSCHE, 2012b, p. 19). Mesmo Ssifo, com seu fardo eterno, tem uma justificao para no tirar a prpria vida. Com as palavras de Camus, as ltimas da obra, a realidade humana pode buscar abrigo em meio s angstias existenciais na qual no se v outra sada seno o suicdio

Deixo Ssifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Ssifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Tambm ele acha que est tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, no lhe parece estril nem ftil. Cada gro dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si s um mundo. A prpria luta para chegar ao cume basta para encher o corao de um homem. preciso imaginar Ssifo feliz. (CAMUS, 2017, p. 124).

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionrio de filosofia. 5ed. Trad. Alfredo Bossi. So Paulo: Martins Fontes, 2007.

BUZZI, Arcangelo. Filosofia para principiantes. Petrpolis, RJ: Vozes, 1991.

CAMUS, Albert. O Mito de Ssifo. 9ed. Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.

GIACOIA, Oswaldo. Nietzsche: o humano como memria e como promessa. Petrpolis, RJ: Vozes, 2013.

GOULIANE, Constantin. Le Marxisme Devant LHomme, Essai dnthropologie philosophique. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1969.

MARTON, Scarlett. Nietzsche: a transvalorao dos valores. So Paulo: Moderna, 1993.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia cincia. Trad. Paulo Csar de Souza. So Paulo: Companhia de Letras, 2012a.

______. Assim falou Zaratustra. Trad. Carlos Duarte e Ana Duarte. So Paulo: Martin Claret, 2012b.

 

Hora certa:

00:00:00

Artigos e Trabalhos

Convidamos voc a percorrer, com calma, nosso site, contemplando, em cada pgina, uma experincia de transcendncia, que o transporte para um mergulho espiritual... Leia mais

Alunos

O segundo semestre de 2019 conta com 27 acadmicos de filosofia, das dioceses de Palmas - Francisco Beltro, Guarapuava e Foz do Iguau.