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A NATUREZA DA RELIGIÃO É VIOLENTA?

A NATUREZA DA RELIGIÃO É VIOLENTA?

KURTA, Matheus1 e ROLING, Silvonei Luiz2

Resumo: Todos os homens são religiosos por essência. O homo religiosus, é capaz de interiorizar-se e autotranscender-se. Isso o diferencia dos animais e outros seres que não sejam humanos. Sua capacidade de desenvolver o sentimento religioso em comunidade é próprio de sua espécie. A religião é a ponte que liga o humano à “totalmente outro”, isto é, simboliza o Sagrado, o qual se manifesta em diferentes formas. E assim, formam-se as diferentes religiões que tem em comum traços deste ser numinoso. A religião em sua gênese e fim é boa, capaz e eficiente.

 

Palavras-chave: Religião; Homo religiosus; Sagrado; Interiorização.

INTRODUÇÃO

A religião nunca foi tão questionada como nesses últimos tempos. Em todos os âmbitos, sejam eles econômico, histórico, social, cultural, filosófico, político, moral, ético, entre outros, a religião sempre é atingida por uma série de acusações, como se elas fossem ditadoras, que proíbem seus seguidores a determinadas práticas ou formas de conduta. O cenário mais recente disso, é a discussão sobre a descriminalização do aborto no Brasil até a 12ª semana de gravidez em que o catolicismo, opondo-se à conduta abortista, é acusado de ser conservador e fundamentalista.  Perante essas acusações surgem dúvidas da necessidade e importância das religiões. De como elas se organizam e de onde surge tanta vitalidade em suas reparações. Reparações aos danos que diariamente sofrem. Quem nos ajuda com essas questões são teólogos e professores, que assim como Rudolf Otto, afirma que a religião “[...] é essencialmente obrigação íntima, normatividade para consciência e o vínculo da consciência, é obediência e culto, não pela pura e simples coerção pelo Avassalador, mas pelo curvar-se em reconhecimento diante do mais sagrado valor.” (OTTO, 2007, p. 92). A religião não tem como intenção ditar normas e regras. A religião não pretende oprimir os homens e nem privá-los. A sua função é outra. Precisamos retornar a origem de sua palavra e a origem dos povos primitivos para tentarmos compreender a sua finalidade. Assim, será possível perceber porque o homem é religioso em sua essência e como ele desenvolve o sentimento religioso em sociedade. É uma invenção da cabeça humana a religião? É aspiração à felicidade, como dizia Feuerbach? É ópio do povo, segundo Marx? Produto bastardo dos complexos nascidos por causa da repressão dos instintos sexuais, como afirmava Freud? Há

1 Acadêmico do sexto período de Filosofia – ISF. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 2 Acadêmico do sexto período de Filosofia – ISF. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

algo maior que o humano que o induz a cultivar um sentimento de interiorização? Desde quando o homem é religioso? Ou, ainda, como dizia Nietzsche, Deus está morto e a religião como uma invenção humana, usada pelos fortes para ter o domínio sobre os fracos?

DESENVOLVIMENTO

O termo Religião tem sua origem do vocábulo latino Religio de “Re-legere” ou “Religare”, que traduzido para o português será o mesmo que “re-ler” e “re-ligar” sucessivamente. Desta maneira, o sentido que brota da palavra é um “re-volver-se” a algo, a alguma coisa. Ligação de um fim Último à Origem primeira. Último, que possui maior transcendência que tudo aquilo que está contido no espaço percorrido desde o princípio.  Do ponto de vista ontológico-cristão, é o ato de religar o homem à Deus, o qual voltaremos falar mais à frente. A Religião surge da aglomeração de pessoas, não é individual, pois “Em todos os povos e épocas se encontra alguma religião; nem a história nem a préhistória conhecem um estado a-religioso da humanidade.” (BERETA, 1978, p. 455). Segundo Battista Mondin em um sentido amplo:

Manifestação tipicamente humana é a religião. Ela não está presente nos outros seres vivos, mas somente no homem. E é manifestação que, se abarcarmos a humanidade inteira, seja com relação ao espaço quanto ao tempo [...], assume proporções notabilíssimas. Os antropólogos informam-nos que o homem desenvolveu atividade religiosa desde a sua primeira aparição na cena da história [...]. Ademais, é coisa mais que sabida que todas as culturas são profundamente marcadas pela religião e que as melhores produções artísticas e literárias [...] se inspiram em motivos religiosos. (MONDIN, 2014, p. 224).

Como visto, toda cultura possui religião, e se é cultura é porque é formado por um grupo de pessoas que comungam dos mesmos ideais, dos mesmos conceitos. Sendo assim, a religião, seja para o bem ou para o mal, é própria do homem. É um fato humano individual e coletivo. A religião não é somente subjetiva (única e exclusiva de cada homem) nem somente objetiva (toda e exclusiva do Sagrado), mas da orientação do homem ao Sagrado. É o sentimento religioso que os une a prática religiosa. Conforme Mondin (2014, p. 224), o homem além de sapiens, volens, faber, loquens, ludens, etc., é também religiosus.  Mesmo que nos dias atuais as grandes religiões passem por crises, não se elimina esse fato constituinte e inerente ao homem que é o ser religioso. É um ponto constituinte de sua essência. É correto afirmar também, que em cada área do saber, a religião adquirirá uma roupagem diferente. De acordo com John Hick:

 

Religião é uma coisa para o antropólogo, outra para o sociólogo, outra para o psicólogo (e outra ainda para outro psicólogo!), outra para o marxista, outra para o místico, outra para o zen-budista e outra ainda para o judeu ou o cristão. Existe, por conseguinte, uma grande variedade de teorias religiosas sobre a natureza da religião. Não há, portanto, nenhuma definição universalmente aceita de religião, e possivelmente nunca haverá. (HICK apud CRAWFORD, 2005, p. 15).

Entre todas essas definições que encontramos, há aquelas que falam sobre sua prática, enquanto outras ao que ela é em sua essência. Entretanto, é unânime a relação existente entre o ser humano e o Sagrado, sendo a religião, a ponte intermediária entre os seres. Como dito, é próprio do ser humano. Os animais permanecem no material, movidos por impulsos e instintos, enquanto o homem é um mundo à parte, onde ele reflete, revive e confere dimensões infinitas. Tudo isso se dá por sua capacidade de interiorizar-se.  Conforme nos diz Santo Agostinho, a verdade, a qual entendemos Deus, habita no interior do homem, quando ele escreve: “Tarde vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-vos! Disforme, lançavame sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco!” (AGOSTINHO, 2017, p. 265). Falamos de um ser ad intra e ad extra, que se encontra no ambiente (ad extra), mas que ao tempo o transcende (ad intra). Que busca conhecer-se. Não por autossuficiência ou egocentrismo, mas recolhe-se para adquirir força e dinamizar sua existência. Este é o itinerário da interioridade do homem. A força motriz humana é a sua qualidade essencial de interiorização. É a sede, fonte de sentimento, do movimento e do comportamento na direção pessoal e no dinamismo operativo. É o centro de unificação e interiorização que dá a direção. Entrar neste centro, é abrir-se para os outros e para o alto. Não há dúvidas de que o homem não necessite de mudanças. A superação de obstáculos despertam alegrias e novos desafios que garantirão novas conquistas. Paulo VI em sua Encíclica Populorum Progressio (1967) deixa subentendido que o homem só realiza-se transcendendo-se. De fato, a essência humana não se extingue naquilo que ele é, mas naquilo que ele pode ser. Com isso, podemos voltar a falar do verbo “religar”, partindo da abertura do homem, que já interiorizado, transcende-se e abre-se ao Absoluto.

Como o estar abertos às coisas nos desvela, neste estar abertos, que as coisas “existem”, assim também o estar religado nos descobre que “existe” aquilo que religa, aquilo que constitui a raiz fundamental da existência [...]. Deus não é algo que está no homem como parte dele, nem uma coisa que lhe é acrescentada do exterior, nem um estado de consciência, nem um objeto. O que Deus é no homem é somente a religação na qual estamos abertos a ele [...] (GRECO, 2009, p. 213).

O homem pode ser considerado religioso porque “[...] é aquele que foi tocado pela potência sagrada.” (GRECO, 2009, p. 87). Mas o que é o sagrado? Como o homem sabe quando está sendo tocado pelo sagrado? Segundo Eliade (1992, p. 13) “O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano.” E ainda:

O homem ocidental moderno experimenta um certo mal estar diante de inúmeras formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. Mas, [...] não se trata de uma veneração da pedra como pedra, de um culto da árvore como árvore. A pedra sagrada, a árvore sagrada não são adoradas com pedra ou como árvore, mas justamente porque são hierofanias, porque “revelam” algo que já não é nem pedra, nem árvore, mas o sagrado, o ganz andere [“totalmente outro”]. (ELIADE, 1992, p. 13).

São os sinais que despertam nos seres humanos, desde as religiões primitivas, o sentimento do Sagrado. O “totalmente outro” dito por Rudolfo Otto e também por Mircea Eliade revelam a descoberta do homem em ser homem como tal, racional, porém limitado. A medida que autotranscendesse é limitado e falho, reconhece-se como criatura diante deste “totalmente diferente.” Desde o surgimento

[...] parece que no consciente humano existe a percepção de algo real, uma sensação de algo efetivamente presente, uma noção de algo objetivamente existente, mais profundo e de validade mais geral que qualquer das sensações isoladas especiais pelas quais é atestada a realidade segundo a opinião da psicologia de hoje. (JAMES apud OTTO, 2007, p. 42).

O homem, sendo criatura, é capaz de Deus e potencialmente religioso desde quando começou a ser homem. O Catecismo da Igreja Católica adverte que Deus “[...] Chama-o e ajuda-o a procurá-lo, a conhecê-lo e amá-lo com todas as suas forças.” (CIC n. 1). E assim, vai se constituindo as religiões. Os etnólogos apresentam uma série de religiões que estão presentes desde as primeiras civilizações. Dizem que a forma mais elementar de religião é o fetichismo; religião em que se adoram objetos e símbolos, politeísta ou monoteísta (religião dos gregos). Outra religião apresentada é o henoteísmo, em que a ideia religiosa surge das experiências sensíveis; o prazer seria um modo de sentir Deus. O animismo com a crença nos espíritos, leva o homem a sua transcendência; seus sonhos, êxtases, morte, etc. O toteísmo, próprio da América do Norte, reverencia o animal como elemento sagrado; totem de animais que relembram seus antepassados por suas particularidades. O magismo emergente das magias, fruto das primeiras culturas, está ligada aos alquimistas e feiticeiros que mexiam com tudo que era possível na tentativa de transformá-las. E as religiões monoteístas primitivas, que acreditam na existência de um Deus apenas. Como visto,

[...] coisas como crença nos mortos e culto aos ancestrais, a crença em almas [ou espíritos] e seu culto, feitiço [Zauber], contos e mitos, adoração de objetos na natureza, sejam eles assustadores ou esquisitos, nefastos ou benéficos, a curiosa noção do “poder” (Orenda3), fetichismo e totemismo, adoração de animais e plantas, demonismo e polidemonísmo. Todas essas coisas, por mais que difiram entre si e por mais distantes que estejam da religião autêntica, já estão palpavelmente assombradas por um elemento comum, que é o numinoso, razão pela qual (e somente por esta) elas constituem uma ante-sala da religião. (OTTO, 2007, p. 155).

O que todas tem em comum é o elemento do numinoso4, isto é, do Sagrado. O ponto fundamental de todas as religiões é a crença no Sagrado. O humano pode até dizer ser ateu, por não acreditar nesse ser Absoluto, porém ninguém pode dizer que Ele não existe. O que está em jogo na ante-sala da religião “[...] é o „poder‟, sendo que sua incorporação acaba se transformando nos chamados „ritos de comunhão‟ e „sacramentos‟ somente quando nele se assentou a ideia do „feitiço‟, da „magia‟, do „sobrenatural‟, em suma: mais uma vez a noção do „totalmente outro‟.” (OTTO, 2007, p. 159). O “totalmente outro” que conduz o homo religiosus a constituir a religião. Essa, tende à institucionalizar, para uma melhor organização daqueles que a estabeleceram. A intenção fundante de toda e qualquer religião é boa. Pois, todas possuem a motivação inicial desse ser numinoso. Entretanto, o poder conferido as coisas e ao homem pode ser facilmente manipulado e descaracterizado pelo humano que é limitado e falho. E assim, o homem é capaz de fundamentar uma ação violenta em nome da religião.

3 Poder mágico na mitologia indígena. 4 Efeitos e sentimentos que podem ocorrer na psique como um elemento irracional do sagrado.

A NATUREZA DA RELIGIÃO É BOA

Como visto, a religião em sua gênese é boa. O sentimento religioso encontrado desde a existência humana é prova de que não existe e nunca existiu nenhuma civilização que não tenha uma religião.  A sua constituição coletiva se dá a partir desse sentimento intrínseco do homem. Émile Durkheim percebendo a dualidade da natureza humana, afirma haver contradição mutua entre elas “[...] na ordem do conhecimento, de um lado há os sentidos e a racionalidade sensível, e, de outro, o entendimento e a racionalidade conceitual; na ordem da ação, os apetites egoístas, de um lado, e a atividade religiosa e moral de outro.” (DURKEHIM, p. 28). Mesmo parecendo contraditório é essa dualidade que constitui o homem. A escolha de qual força prevalecerá é totalmente humana, isto é, escolher afundar-se no egoísmo, ou abrir-se aos outros em uma vivência harmônica da moralidade. O homem, também considerado como ser de natureza social, necessita de uma sociedade para se desenvolver. Não pelo simples fato de que não consiga viver sozinho, mas porque entre os humanos, seus vínculos influenciam nas escolhas de cada indivíduo. Quando ainda bebê, a pessoa já é inserida em um círculo familiar que participa de práticas culturais. Depois de adulto dá sequência a perpetuação da cultura. Pois o homem, é pai e filho da cultura. Sendo assim, a religião arraigada à cultura, desenvolve-se intrinsicamente ao homem, não de maneira externa, mas interna, demostrando a sua necessidade.  Em contra partida, seguindo a ideia de Durkheim, a outra força da dualidade humana está em seu ser egoísta e egocêntrico. Diante disso, o homem pensando somente em si é capaz de cometer atrocidades jamais imaginadas. A história nos revela atitudes violentas que parecem nunca terem sido praticadas por algum “ser racional”. E o homem, com suas dimensões de natureza boa, acaba por optar em rejeitá-las, ou ainda mais danoso, desvirtuálas a fim de que o poder prevaleça. Nisso, pode-se pensar que a religião sirva como fundamentação a atitudes violentas. Porém, segundo Karen Armstrong “[...] a religião não é fonte de violência na humanidade.” (ARMSTRONG apud RIBEIRO, 2016, p. 90). A religião não nasce violenta, mas se faz violenta. São as atitudes do homo religiosus que tornam a religião fundamentalista e intolerante.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO. Confissões. Tradução de J. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis: Vozes, 2017.

BERETA, Diergiorgio. Léxico de Verbetes Latinos. São Paulo: Edições Paulinas, 1978.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 4ª edição. São Paulo: Loyola, 2017.

CRAWFORD, Robert. O que é religião? Tradução de Titton Gentil Avelino. Petrópolis: Vozes, 2005.

DURKHEIN, Émile. O problema religioso e a dualidade da natureza humana. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/debatesdoner/article/view/36518. Acessado dia: 04/09/2018.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

GRECO, Carlo. A experiência religiosa – Essência, valor, verdade – Um roteiro de Filosofia da Religião. Tradução de Alda da Anunciação Machado. São Paulo: Loyola, 2009.

MONDIN, Battista. O homem, quem é ele? Tradução de R. Leal Ferreira e M. A. S. Ferrari. São Paulo: Paulus, 2014.

OTTO, Rudolf. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. Tradução de Walter O. Schlupp. Petrópolis: Vozes, 2007.

PAULO VI. Populorum Progressio. Roma: 1967. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_pvi_enc_26031967_populorum.html. Acessado dia: 28/08/2018

RIBEIRO, Wesley dos Santos. Intolerância religiosa e violência, frente às práticas religiosas no Brasil, no século XXI. Dissertação (mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião, Goiânia, 2016.

 

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