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Agnosticismo kantista - criticismo transcendental

FRANCA, Leonel. O Problema de Deus. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1953, pp. 105-126.
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Do agnosticismo emprico nas suas diferentes modalidades passamos ao agnosticismo subjetivista que reconhece em KANT o seu iniciador nos tempos modernos. Com esta transio variam as razes fundamentais da atitude agnstica, atenua-se notavelmente a rigidez das primeiras excluses do positivismo ortodoxo, mas permanece ainda substancialmente idntico o resultado final, a essncia de todo o agnosticismo, constante em afirmar a impossibilidade insanvel de chegarmos por via racional a uma certeza da existncia de Deus.
Para o empirismo nominalista, os nossos conceitos no passam de simples imagens compsitas; os princpios racionais e entre eles, o de causalidade de meras associaes de imagens formadas pela experincia dos indivduos e organizadas biologicamente pela experincia da espcie (SPENCER). Axiomas de valor necessrio e universal que nos permitam a certeza de concluses transcendentes ordem emprica, no as possumos. A inteligncia no uma faculdade que pode elevar-se ao conhecimento do ser; seu alcance no ultrapassa o domnio dos fenmenos. Qualquer esforo para altear-nos acima do dado experimental um querer voar no vazio: tentativa de movimento sem apoio. Esta teoria do conhecimento tolhe-nos pela raiz, com a liberdade soberana dos grandes vos, a possibilidade de uma demonstrao da existncia de Deus; no chega, porm, a este resultado fatal sem haver antes destrudo a prpria razo e comprometido para sempre a possibilidade da prpria cincia.
Bem o viu KANT, A cincia, observou ele, no pode viver sem princpios universais e necessrios. antes de tudo um fato: fcil mostrar que no conhecimento humano existem semelhantes juzos, necessrios e universais, no sentido mais rigoroso1. ainda uma exigncia a que nos no pudemos furtar sem aluir pela base a certeza dos prprios conhecimentos experimentais: sem recorrer a exemplos poder-se-ia ainda ... demonstrar que estes (princpios) so indispensveis possibilidade da prpria experincia2. Uma teoria como a de HUME que reduzisse esta necessidade a uma simples aparncia ilusria, fruto do hbito, seria no dizer textual de KANT destrutiva de toda filosofia3.
E eis nitidamente delineada a primeira fronteira que separa o empirismo do kantismo. No h princpios rigorosamente universais e necessrios proclama o positivismo de todos os matizes de HUME a SPENCER, de COMTE a MILL ou TAINE. Sem estes princpios, revida KANT, no pode haver conhecimento cientfico; a sua existncia to certa quanto a da prpria cincia.
At aqui de acordo. A divergncia comea na explicao da possibilidade, da natureza e do alcance objetivo destes princpios. A teoria do criticismo transcendental resolve-se, em ltima anlise, no agnosticismo e, tambm ela, acaba destruindo a prpria cincia, ou melhor ainda a razo como faculdade do conhecimento do ser. Para demonstr-lo, no podemos prescindir de nossa exposio sumria do sistema de KANT. Omitiremos tudo quanto no se refere diretamente ao nosso assunto, e este mesmo, reduzi-lo-emos ao essencial, aliando, quanto possvel, a exatido clareza.
A razo de ser fundamental da Crtica da Razo Pura resolver o grande problema que acabamos de propor; a possibilidade e os limites do nosso conhecimento cientfico. E como no h nem pode haver cincia sem princpios universais e necessrios, o fim que se prope KANT a explicao destes juzos que o empirismo inconsiderado de HUME comprometera com a sua teoria superficial do associacionismo. De modo geral podemos distinguir duas espcies de juzos: analticos e sintticos.
Os juzos analticos so juzos de identidade; neles o predicado no exprime outra coisa mais do que a essncia do prprio sujeito. Basta analisar a idia do sujeito para nele encontrar o predicado. Assim, por exemplo, os corpos so extensos; o atributo extenso nada mais acrescenta ao sujeito o corpo que, na sua natureza, j inclui a extenso. Estes juzos so, por isso mesmo, recprocos; os seus termos podem inverter-se como os de uma identidade. So necessrios e universais, imediatamente baseados no princpio de contradio; enquanto uma coisa o que no pode deixar de ser o que ; enquanto o corpo for corpo no poder deixar de ser extenso. No ponto de vista cientfico, sua importncia somenos; estas preposies so apenas explicativas no extensivas do conhecimento; podem esclarecer uma idia apresentando-a sob vrios aspectos mas no ampliam nem enriquecem o tesouro do saber.
Outra a natureza dos juzos sintticos.. Aqui, o predicado acrescenta ao sujeito algo de novo; nenhuma anlise capaz de encontrar um termo no outro. A inteligncia realiza uma verdadeira sntese dos dois. Qual a lei que explica e justifica esta sntese? Por que motivos atribumos a um determinado sujeito um predicado que estranho sua natureza. Nos juzos analticos o princpio de identidade uma garantia de sua certeza absoluta; e, por isso, um juzo deste gnero no pode ser falso sem ser, ao mesmo tempo, contraditrio. Qual a razo que justifica a sntese intelectual nos outros que podem ser falsos e no contraditrios? Examinemo-los mais de perto.
Alguns destes juzos so particulares e contingentes; esta pedra, exposta ao sol, est quente; doe-me a cabea. Nestes casos, a experincia, a percepo externa ou interna, Wahrnehmung, constitui um motivo suficiente da afirmao. A sntese faz-se aqui em virtude de um motivo a posteriori; chamemo-los, por isto, juzos sintticos a posteriori; Seu valor cientfico, porm, nulo; no de semelhantes afirmaes particulares que s se verificam num determinado ponto do espao e do tempo que se constitui a cincia.
Os princpios cientficos apresentam outros caracteres; so necessrios e universais, por um lado, e, por outro, no so analticos, no so explicativos mas extensivos do saber. Porque neles o predicado se acrescenta por uma verdadeira justaposio ou composio de uma idia que no se encontra na anlise do sujeito, chamemo-los sintticos; porque, universais e necessrios, no podem ter, na experincia, particular e contigente, a razo desta sntese, denominemo-los sintticos a priori.
Dificilmente poderia exagerar-se a importncia capital destes juzos, que, pelos caracteres acima indicados, so os que constituem verdadeiramente a cincia. E, percorrendo as diferentes cincias, fsicas e matemticas, julga KANT haver demonstrado que todos os seus princpios so juzos sintticos a priori.
Explicar-lhes a possibilidade , pois, explicar a possibilidade da prpria cincia. Para to momentosa tarefa, o filsofo de Koenigsberg no julga demasiada a constituio de uma nova cincia, que ele fundou e a que deu por ttulo: Crtica da Razo Pura4.
J conhecida a resposta dada pelo fundador do criticismo a esta questo fundamental. Conhecimento a priori, diz ele, todo aquele que necessrio e universal, e, por isso, no tem sua explicao adequada na experincia que s nos oferece casos singulares. Estes caracteres, porm, que no tm sua origem no objeto conhecido, advm-lhe do sujeito que conhece. Anterior a qualquer experincia, existem em ns umas tantas disposies que condicionam a experincia e a tornam possveis e, por isso mesmo, se podem afirmar necessria e universalmente de todo o objeto experimentado, como de modo necessrio e universal podemos afirmar que se acha na trajetria da bala a caa abatida, qualquer que seja, de pena ou de montaria. Estas condies KANT chamou-as formas a priori do conhecimento e num esforo ingente de sistematizao deu-se ao trabalho de inventariar-lhes um catlogo completo, onde se estadeia todo o seu gosto pelas simetrias arquitetnicas. Duas formas na sensibilidade: o espao e o tempo, a primeira da sensibilidade externa, a outra da sensibilidade interna; Doze no entendimento, as categorias, simetricamente dispostas em grupos de trs segundo as diversas formas do juzo da tabela leibniziana; Trs da Razo pura, as idias de Deus, do Mundo e do Eu; Duas ainda na faculdade do juzo: a do belo e da finalidade.
Eis agora como se explica o mecanismo do conhecimento. A realidade externa, cuja natureza, em si, permanecer sempre para ns uma incgnita impenetrvel, impressiona a nossa sensibilidade que a esta matria informe aplica a forma do espao no h objeto de experincia seno localizado no espao e a forma do tempo toda a percepo para ser consciente vem inserir-se na continuidade sucessiva dos estados psquicos. Desta primeira sntese resultam as intuies da sensibilidade, que legitimam a existncia das matemticas. Delas se ocupa a Esttica transcendental.
As instituies da sensibilidade so, por sua vez, submetidas ao entendimento, Verstand, onde se encontram as doze formas a priori, chamadas categorias, no no sentido aristotlico de subdivises do ser, mas na acepo etimolgica de modos de afirmar. Graas s categorias, realizam-se as novas snteses de causalidade, possibilidade, unidade, pluralidade, etc. A sua existncia explica a possibilidade da fsica, no sentido amplo de cincias da natureza. O seu estudo constitui objeto da Analtica transcendental.
Com esta explicao, inverte-se completamente a noo de conhecimento que, de uma representao passa a ser uma construo do objeto. As coisas, no as conhecemos como so em si, mas atravs das formas que lhes aplicamos. A natureza parcialmente criao do esprito. Pelo uso pr-consciente ou, na linguagem de KANT, transcendental das formas de conhecimento ns construmos o objeto, s assim construdo, o tornamos suscetvel de experincia. A necessidade e universalidade das afirmaes cientficas no resultam da realidade, mas apenas das condies subjetivas inseparveis da nossa natureza. 2 + 2 = 4 no representa uma verdade objetiva, mas, to-somente, para ns, uma impossibilidade fsica de pensarmos diversamente.
Quanto ao alcance do nosso saber so bvias tambm as conseqncias. O mundo que nos acessvel unicamente o dos fenmenos enquanto fenmeno diz o real na medida que se adaptou s nossas condies subjetivas de percepo. A realidade em si, o noumenon e permanece sempre imprvio s possibilidades do conhecimento. Tudo o que no estiver no tempo e no espao acha-se fora das condies de uma experincia possvel. O princpio de causalidade , para KANT, sinttico a priori; vale, como necessrio e universal no domnio da fsica; qualquer esforo para com este princpio, transcender a ordem dos fenmenos, est de antemo condenado impotncia sem remdio.
No entretanto, no trabalho ascendente de unificao do saber no descansamos ainda nos juzos condicionados pelas categorias do entendimento. A razo tende naturalmente a ir alm e a procurar a explicao derradeira do relativo no absoluto, do condicionado no incondicionado. A esta funo sinttica superior servem as idias da razo, Vernumft. Assim, a idia cosmolgica do universo a condio incondicionada dos fenmenos externos; a idia psicolgica da alma, a condio incondicionada dos fenmenos internos; a idia teolgica de Deus, o absoluto onmodo, condio incondicionada de toda a existncia. O movimento do espontneo da nossa razo leva-nos a conceber Deus como o primeiro dos seres, um ideal sem defeitos que vem dar o todo o edifcio do conhecimento o seu remate natural e a sua suprema unidade. Esta demonstrao metafsica, porm, ilusria, no passa de um puro jogo dialtico a que nenhuma realidade corresponde. As idias da razo so, conceitos vazios, Begriffe, uma pura essncia, sem existncia, so como focos imaginrios para os quais tendem todos os raios do pensamento, mas sem nenhuma realidade. Elas no se aplicam, como as categorias do entendimento, a intuies da sensibilidade. Onde, por hiptese, como precisamente no caso da razo, o objeto do saber se acha fora do espao e do tempo, a j no possvel nenhuma experincia e portanto as formas a priori ficam sendo puras formas do pensamento, sem nenhum contedo de realidade. As idias do mundo, da alma, de Deus permanecem como supremos princpios reguladores que estimulam o esprito unificao do saber. Sua funo reduzir unidade sistemtica a variedade dos nossos conhecimentos. Tudo de fato se passa para a nossa razo como se (als ob) atrs dos fatos de conscincia existisse um eu, como se os fenmenos externos fossem parte de um todo determinado, como se acima dos seres finitos e contingentes existisse um Ser supremo e necessrio. Esta, porm, uma funo puramente ideal. A razo no faculdade capaz de atingir o absoluto. A suas idias, formas puras, no podemos afirmar corresponda alguma realidade objetiva5. Assim Deus, realidade, se acha fora do alcance da razo pura, to incapaz de provar-lhe, quanto de negar-lhe a existncia. Como o tesmo racional, o atesmo uma tentativa ilusria.
Se, ultrapassando os seus limites naturais, a razo quiser atribuir s idias uma realidade extramental, incorrer em antinomias insolveis. Achar-se- diante de proposies contraditrias, acerca de um mesmo objeto, provadas com igual peso de razes. E KANT desenvolve aqui estas antinomias teses e antteses nas quais v mais uma confirmao dos resultados de sua crtica, mais uma prova da impossibilidade de atingir a Deus com a razo demonstrativa, impotente para as ressalvas6.
Concluso da Dialtica Transcendental: no possvel uma metafsica do futuro, cujos prolegmenos escreveu KANT ser exclusivamente uma metafsica crtica, tendo por objeto determinar os limites naturais e intransponveis das nossas possibilidades de saber.
Um agnosticismo sem esperanas no domnio especulativo, eis a concluso da Crtica da Razo Pura.
A obra de KANT, porm, ainda no est completa. Ao agnosticismo especulativo vai suceder o dogmatismo moral. O que os olhos da razo pura no se afigurava seno como ideal, como hiptese inverificvel e inafirmvel, passa para a razo prtica a ter uma existncia real. , na construo do mundo das realidades transcendentes, a afirmao do Primado da Vontade sobre a Inteligncia.
O dever a grande realidade da nossa vida moral. O imperativo categrico impe-se conscincia como um absoluto. Faze o teu dever. Um imperativo hipottico ou condicionado faze isto se queres aquilo destruiria o dever, substituindo-o ao meu bel-prazer. Tudo, portanto, o que condiciona a existncia do dever, constitui um postulado indispensvel da vida moral. Ora, no podemos conceber a virtude seno como unida indissoluvelmente felicidade. O justo, o santo definitivamente infeliz repugna nossa justia. Por outro lado, porm, moralidade e felicidade so heterogneas, pertencem a ordens distintas e irredutveis. Agir em vista de uma recompensa, ser virtuoso para ser feliz, imoral. A felicidade visada como fim de uma ao destri-lhe a moralidade. O dever pelo dever: eis a frmula austera da obrigao moral. Destarte, porm, como a ordem da virtude no pode, sem negar a si mesma, levar ordem da felicidade, mister que exista um Ser inteligente e onipotente, capaz de realizar a unio definitiva da virtude e da felicidade. Este Ser no pode ser outro seno o Criador do homem: Deus. portanto necessria e legtima a afirmao da existncia de Deus7/
Por um processo anlogo chega KANT a estabelecer tambm a liberdade e a imortalidade da alma. Existncia de Deus, liberdade e imortalidade da alma constituem assim os trs requisitos indispensveis nossa vida moral. A razo pura chegava apenas a conceber estas realidades metafsicas, como possveis, sem as conhecer; a razo prtica afirma-as no como objeto de cincia mas como exigncia prtica. A ordem das realidades transcendentes que para a razo especulativa ficava no domnio do problemtico, passa a ter um valor objetivo, em face do uso prtico da razo. O processo tico precisa destas realidades metafsicas e pede sua afirmao razo especulativa que s as havia podido conceber8. Afirmar sem saber, eis o que para KANT se chama crer. Estas verdades fundamentais no so, pois, objeto de cincia mas de crena, e as proposies tericas em que se enunciam estas afirmaes chamam-se postulados9.
Tive assim que destruir a cincia para substituir-lhe a f10. Nesta frase onde rev a doutrina luterana da oposio entre a razo e a f resume-se todo o trabalho das duas Crticas. Tive que destruir a cincia o resumo da Crtica da Razo Pura. Deus no pode ser objeto de cincia: o conhecimento humano de sua natureza circunscreve-se esfera da experincia atual ou possvel. A metafsica, que por definio se priva de toda a intuio sensvel, no uma cincia, um conhecimento objetivo. As idias de que se ocupa so puras formas sem matria real. A razo especulativa julga atingir o ser, de fato, manipula apenas as suas idias ou formas vazias num jogo dialtico de perptuas iluses. Para substituir-lhe a f eis a funo da Razo prtica. O agnosticismo especulativo deve ser completado com o dogmatismo moral11. Aqui a existncia de Deus afirmada como uma exigncia prtica da ao. Esta adeso subjetiva reconduz-nos ao mundo do absoluto e das realidades transcendentes inacessveis razo pura.
Como se v, o agnosticismo moderno no seu duplo aspecto: desconfiana dos argumentos racionais, supervalorizao dos motivos algicos e prticos reconhece em KANT o seu verdadeiro indicador.
No nos possvel fazer aqui uma crtica pormenorizada de toda esta grande sistematizao filosfica. Uma discusso analtica cerrada mostraria facilmente como os noumenous e fenmenos, as categorias e as idias, os a priori e os transcendentais todas estas ilustres personalidades do kantismo no podem dar um passo sem tropear em contradies imanentes inelutveis.
Em vez de uma ofensiva em todos os setores, limitar-nos-emos, para os fins que levamos em mira, a uma crtica de princpios e de fundamentos. Ver uma dificuldade at raiz e resolv-la integralmente, que prazer para a inteligncia! Que paz interior para a alma!
O ponto de partida da Crtica a existncia dos juzos sintticos a priori. Da inicia ele o exame das condies do conhecimento a priori em geral, para explicar-lhe a possibilidade por meio das formas subjetivas. KANT no desconheceu esta importncia capital. O que de mais desastroso poderia suceder a estas investigaes que algum fizesse a descoberta inesperada que no existe nenhum conhecimento a priori. Mas deste lado no h nenhum perigo12. Em outra obra confessa que se algum demonstrasse a falsidade de sua concepo relativa aos juzos que ele chamou sintticos a priori, com isto poria fim a toda a sua crtica e o obrigaria a voltar aos antigos mtodos13.
Ora, estes juzos sintticos a priori no existem. A descoberta inesperada que seria fatal ao sistema uma realidade. A razo alegada pelo kantismo em seu favor a existncia de proposies que, por um lado, no so analticas, no se podem explicar pela conexo interna entre o sujeito e o predicado e, por outro, por serem universais e sucessivas no tm ou no podem ter na experincia o motivo do assentimento do intelectual. Ora, se a experincia enquanto objeto apenas da sensibilidade no nos oferece mais que a sucesso de fatos particulares, submetida abstrao intelectual capaz de fundar um juzo universal e necessrio. A inteligncia dotada do poder de abstrair, isto , de considerar num objeto alguns dos seus aspectos e omitir outros ou prescindir deles. Ante os objetos concretos e singulares podemos abstrair daquilo que os concretiza e individua e considera apenas o que os especifica, isto , a sua natureza, prescindindo do modo por que ela aqui ou ali se realiza. Em face de vrios tringulos, os sentidos percebem um e outro e outro, cada um com as suas caractersticas prprias pelas quais se distingue dos demais; a inteligncia abstrai daquilo que prprio de cada um e considera s o que pertence ao tringulo, como tal, a uma superfcie limitada por trs retas que se cortam. Nesta noo geral do tringulo v, por exemplo, que equivale metade de um paralelogramo da mesma base e da mesma altura e que, portanto, a sua rea dada pelo semiproduto da base pela altura. Este resultado universal e necessrio, verifica-se em todos os tringulos, atuais ou possveis, porque uma conseqncia que decorre da prpria natureza do tringulo: verificar-se- necessariamente onde quer que haja tringulos. Para elevar-se a este conhecimento necessrio e universal bastou inteligncia abstrair a idia, a noo de um objeto das condies de espao e de tempo que a singularizam nos diferentes indivduos. Destarte explicam-se perfeitamente os caracteres de universalidade e de objetividade do conhecimento cientfico. A objetividade resulta dos elementos sensveis da realidade experimentada ou atingida em si mesma, a universalidade da purificao destes dados sensveis pela inteligncia que, prescindindo dos caracteres individuantes conserva a noo em sua pureza e generalidade especfica.
Esta explicao to simples e to compreensiva, to coerente e to em harmonia com os dados da conscincia, clssica na histria da filosofia, KANT desconhece-a por completo. Todas as vezes que se lhe oferece o ensejo de confrontar a sua tese com outras doutrinas filosficas s lhe ocorrem na pena o empirismo, de LOCKE ou de HUME, o inatismo de LEIBNIZ, ou o ontologismo de MALEBRANCHE. Aos seus olhos, num esquematismo excessivamente simplificador, PLATO personifica o apriorismo, ARISTTELES o empirismo. Esta ignorncia quase completa da histria do pensamento humano foi uma das lacunas mais sensveis e mais prejudiciais na formao do solitrio de Knigsberg. Reconhecem-no os seus melhores bigrafos e mais entusiastas admiradores14. Consolam-se, porm, com a idia de que esta ignorncia salvou a sua originalidade.
Deste desconhecimento, porm, do estado a que j chegara historicamente a questo resultou o no levar ele em considerao mais que as duas teorias extremadas e insuficientes do empirismo e do idealismo, uma, pedindo unicamente aos dados sensveis a chave de toda a vida do esprito, outra, vendo na atividade da inteligncia a fonte nica de todos os conhecimentos. A doutrina verdadeira, que recorre ao concurso harmonioso do esprito e da realidade, da inteligncia e dos sentidos e explica assim a possibilidade de uma cincia real, sem lhe sacrificar nem a objetividade com o idealismo, nem a necessidade e universalidade com o empirismo, esta, KANT nem a descobriu por um esforo pessoal nem a conheceu j descoberta por outrem.
A diferena de envergadura filosfica entre ARISTTELES e KANT ressalta aqui evidente. No sculo XVIII o pensador de Knigsberg achava-se em face do problema da possibilidade do saber cientfico, comprometida pelo inatismo cartsio-leibniziano e pelo empirismo locke-humiano, em condies muito semelhantes s em que se achara, no sculo IV antes da nossa era, o filsofo de Estagira, entre o idealismo de PLATO e o empirismo fenomenista de HERCLITO. O grego, com o vigor de sua genialidade, pela primeira vez, na histria do pensamento, deu a soluo do problema, definitiva na suas linhas gerais; o alemo, no s no a encontrou por si falta de originalidade criadora ma nem sequer a conheceu j existente lacuna imperdovel de erudio. Enveredou por um caminho novo que no devia nem podia lev-lo ao termo desejado.
Ora enquanto se no demonstrar a ineficcia da explicao por meio da abstrao intelectual, evidentemente atestada pela nossa experincia psicolgica, fica suspensa no ar, como construo sem alicerce, toda a teoria do criticismo transcendental. A impossibilidade de explicar por outra via a existncia do conhecimento cientfico ttulo capital por ele apresentado adeso da inteligncia um falso suposto. Damos mais um passo e para rigor de metodologia cientfica observamos ainda quando se demonstrasse a insuficincia da teoria da abstrao, nem por isso se seguiria a necessidade imediata de admitir a soluo das formas a priori do criticismo. Semelhante soluo no se imporia seno depois de demonstrada a impossibilidade de qualquer outra teoria explicativa. Esta demonstrao imprescindvel no s no a deu KANT, mas nem sequer tentou d-la, nem mesmo suspeitou a necessidade lgica de d-la. Toda a sistematizao arquitetnica da Crtica da Razo Pura, , pois, uma construo sem fundamento. O que ela supe ou assume a impossibilidade de explicar de outro modo os caracteres de necessidade e universalidade do conhecimento cientfico simplesmente falso; todo o esforo intelectual provocado por esta falsa suposio no tem razo de ser.
KANT continua a sua tarefa e procura mostrar em concreto a existncia dos juzos sintticos a priori nas diferentes cincias. Tais so, diz ele, todas as proposies da matemtica, da fsica e da metafsica.
Ora, nenhuma destas afirmaes resiste crtica. Ao carter analtico do princpio de causalidade que mais de perto nos interessa consagraremos o pargrafo seguinte. Os princpios da fsica newtoniana so hoje universalmente reconhecidos como princpios sintticos, obtidos por induo como as outras leis das cincias positivas. Os princpios matemticos so simplesmente analticos. Tomemos o exemplo e examinemos as consideraes de KANT. 7 + 5 = 12, diz ele, no um juzo analtico; no se baseia no princpio de contradio nem possvel obter-se o predicado pela simples anlise do sujeito. Do sujeito encontramos apenas a idia de uma soma 7 + 5, no a natureza desta soma; para obt-la mister recorrer a uma intuio no espao15. Nada mais falso; analisemos o sujeito. 7 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1; 5 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1. Desta simples anlise da definio do sujeito resulta a idia do predicado 12. A identidade perfeita, e a inteligncia a v no mediante uma demonstrao que compare os extremos com um termo mdio distinto, mas pela simples anlise imediata da noo dos termos. Enquanto o princpio de identidade A = A for a expresso fulgurante da evidncia; enquanto o princpio de contradio A no pode ser e no ser A ao mesmo tempo, for a condio lgica de inteligibilidade das coisas e ontolgica de sua existncia, 7 + 5 = 1216. Estamos em presena de um princpio evidentemente analtico. KANT no conseguiu demonstrar a existncia de um s juzo sinttico a priori, existncia que, por confisso sua, deveria constituir o objeto da nova cincia.
No existem, pois, juzos sintticos a priori; nem poderiam existir sem destruir pela raiz a prpria natureza do conhecimento. O juzo uma afirmao de identidade expressa pelo verbo ser; em ver uma coisa idntica a si mesma sob dois aspectos diferentes consiste essencialmente o conhecimento. Conhecer um tringulo saber que esta determinada figura de trs lados. Ora esta identidade no a pode afirmar a inteligncia, sem v-la ou na anlise das noes juzos analticos ou na experincia das coisas existentes juzos sintticos. Afirmar uma identidade que se no v, pela aplicao de formas subjetivas a priori, por uma sntese preconsciente ou inconsciente entre elementos que se no conhecem destruir todo o conhecimento, fazendo de afirmaes sem razo suficiente a prpria condio da cincia. Instala-se assim o irracional na estrutura mais ntima da nossa vida racional. O juzo que se no legitimasse por uma das duas evidncias objetivas evidncia analtica ou experimental seria um ato inexplicvel sem motivo suficiente, nem justificao crtica. Fazer destes juzos a condio da cincia no explicar, destruir a cincia. E este na realidade o resultado final da Crtica da Razo Pura17.
A estrutura do conhecimento humano tal qual foi arquitetada pelo solitrio de Knigsberg no suporta a cpula de uma demonstrao racional da existncia de Deus, mas no chega a esta concluso agnstica sem arruinar pela base toda a nossa vida intelectual. Ruiu a teodicia racional, mas com ela, todo o edifcio cientfico. No conhecemos a Deus, mas tambm no conhecemos a nenhuma outra realidade. O mundo e o homem sero para sempre incgnitas indecifrveis; nega-se a inteligibilidade radical do ser, nega-se a inteligibilidade dos mesmos fenmenos. A prpria existncia de uma realidade extramental KANT no a pode afirmar seno a preo de uma contradio imanente. JACOBI, contemporneo de KANT e um dos primeiros e mais atilados crticos de sua obra, escreveu com acerto: Sem a suposio das coisas em si, no posso entrar no sistema; com esta suposio, nele no posso ficar18. FICHTE, entre os contemporneos do filsofo, COHEN em nossos dias, viram esta impossibilidade e, por isto, enveredaram para o idealismo absoluto como conseqncia lgica do kantismo. O solipsismo mais desesperador, que isolaria cada inteligncia em si mesma sem possibilidade de entrar em contato com o mundo das coisas e no convvio com as outras inteligncias, seria o paradeiro fatal desta filosofia destruidora. Um imenso polvo a bracejar no vazio os longos tentculos em esforo eternamente estril de aferrar uma consistncia; eis a imagem da inteligncia humana na filosofia nevoenta deste filho das nrdicas brumas.
Desta concepo da inteligncia nascem todas as lutas e antinomias, todas as incompatibilidades e divrcios que desvirtuam a sntese kantista. A unidade harmoniosa, filha da sabedoria que sabe ordenar, sucedem os contrastes de dualismo inconciliveis. Dualismo entre os sentidos e a inteligncia; entre a razo terica e a razo prtica; entre o mundo interior do esprito e o mundo externo da matria; entre a liberdade noumnica e o determinismo dos fenmenos; entre a virtude e a tendncia felicidade; entre a moralidade e a religio; entre a filosofia e a vida.
As antteses vo por vezes a dilacerao da ruptura ao que h em ns de mais profundo e inextirpvel. Aspiramos irresistivelmente felicidade que reside na perfeio da natureza, mas no podemos agir em vista da perfeio que felicita porque ofendemos a moral que a lei do homem. As questes metafsicas impem-se razo com uma necessidade natural inevitvel, mas resolve-las emaranhar-se em contradies insolveis. Deus indispensvel para a coroa da ordem moral mas agir por amor de Deus uma heteronomia que torna imoral a ao e desvirtua a autonomia da vontade. Sem Deus, sem liberdade, sem imortalidade no podem viver as conscincias, mas a razo pura declara que a afirmao objetiva destas realidades implica antinomias inextricveis.
Nunca se fez unidade, harmonia, ao equilbrio sadio da personalidade humana violncia mais dolorosa nem mais funesta.
Pela sua teoria gnoseolgica, pela separao entre a esfera do pensamento especulativo e as exigncias da vida moral, KANT talvez o filsofo que mais contribuiu para a difuso moderna do agnosticismo. No difcil estabelecer as transies dialticas e o itinerrio histrico entre o kantismo de um lado e de outro o protestantismo liberal, o pragmatismo e o modernismo. SCHLEIERMACHER e RITSCHL sentiram poderosamente a influncia de KANT, SPENCER, LITTR e os agnsticos ingleses mais recentes reportam-se s suas crticas da teodicia racional como a resultados definitivamente adquiridos pela filosofia19.A desconfiana nas foras nativas da inteligncia, a supervalorizao dos motivos algicos, sentimentais e pragmatistas que encontramos como caractersticas de uma parte do moderno pensamento religioso prendem as suas razes mais profundas nas duas Crticas de E.KANT. absolutamente necessrio que nos compenetremos da existncia de Deus, mas no to necessrio que a demonstremos20.
BIBLIOGRAFIA A. VALENSIN, S. J. , A travers la Mtaphysique, Paris, 1925, kantiana, pp. 1-76; J. GEYSER, Einige Hauptprobleme der Metaphysik mit besunderer Bezugnahme auf die Kritik Kants, Freiburg i. B., 1923; J.MARECHAL, Le point de depart de la mtaphysique, Cahier III, La critique de Kant, Paris, 1923; C. SENTROUL, LObjet de la mtaphysique selon Kant et selon Aristote, Louvain, 1905; B. JANSSEN, Le Philosophie religieuse de Kant, tr. Chaillet, Paris, 1934; KNULPE, Immanuel Kant, Leipzig, 1927; E. BOUTROUX, La Philosophie de Kant, Paris, 1926. Uma bibliografia copiosa sobre KANT em Ueberweg, Grundriss der Geschichte der Philosophie, III, Berlin, 1924, 709-758.
Notas
  1. 1. Crtica da Razo Pura, Introduo, II, p. 40 (trad.ital.).
  2. 2. Crtica da Razo Pura, Introduo, II, pp. 40 (trad. ital.).
  3. 3. Crtica da Razo Pura, Introduo, IV, p. 52.
  4. 4. O problema prprio da razo est contido nesta pergunta: Como so possveis os juzos sintticos a priori? De tudo isto nasce a idia de uma cincia especial que se pode chamar Crtica da Razo Pura. Crtica da Razo Pura, Introduo, VI e VII, pp. 51 e 55.
  5. 5. BRHIER resume com clareza o pensamento de KANT. Un objet peut rpondre un concept, condition quil soit construit dans lintuition sensible a priori de lespace et du temps, comme la figure et le nombre; cest le cas des objets mathmatiques, et cest pourquoi les jugements synthtiques priori ds mathmatiques sont possibles. Le concept peut encore avoir um objet quand il donne une rgle a priori, selon laquelle est li le divers de lintuition sensible pour quun objet dexprience soit possible; tels sont les concepts de substance, de cause, et ainsi sont possibles a priori les jugements synthtiques de la physique. Mais les jugements synthtiques a priori de la mtaphysique ne rentrent ni dans lun ni dans lautre cas: leurs objets, lme, le monde ou Dieu, ne peuvent sexposer dans une intuition sensible, et ils ne sont pas des conditions dune experience possible; ce qui revient dire quils ne peuvent prtendre aucune valeur objective. E. BRHIER, Histoire de la Philosophie, t. II, II, P. 545.
  6. 6. Das quatro antonomias propostas na Crtica, citemos as trs, 1a , 3a, 4a , que interessam de perto a teodicia: 1a Tese: O mundo teve comeo no tempo e limitado no espao; Anttese: o mundo no teve comeo no tempo nem limite no espao. 3a Tese: Para explicar o mundo deve admitir-se uma causalidade livre; Anttese: a causalidade livre inadmissvel; 4a Tese: Ao mundo sensvel refere-se ou como parte, ou como causa um ser necessrio; Anttese: em parte alguma existe um Ser absolutamente necessrio. KANT julga que estas teses e antteses se possam provar com argumentos de igual valor sem que a razo se possa desembaraar das antinomias. E desta prova da importncia da razo faz grande cabedal. (Cfr. Dialectica Transcendental, cap. II, sect. II. ) realmente para lamentar que o autor da Crtica se deixasse assim emaranhar por paralogismos visveis e ignorasse os resultados adquiridos na histria do pensamento. Para uma soluo breve das antonomias, cfr. A. VALENSIN, A Travers la Mtaphysique, Paris, 1925, pp. 15-17; 38-39.
  7. 7. O postulado da possibilidade do soberano bem derivado ao mesmo tempo o postulado da realidade de um soberano bem primitivo, a saber da existncia de Deus. Ora, um dever para ns realizar o soberano bem e portanto no s um direito seno ainda uma necessidade, ligada como exigncia com o dever, supor a possibilidade deste soberano bem que, uma vez no sendo possvel seno sob a condio da existncia de Deus, liga inseparavelmente a suposio desta experincia com o dever; por outra moralmente necessria admitir a existncia de Deus. KANT, Gesammette Schriften, hsg. V. der Koeniglisch-Prussichen Akademie, Berlin, t. V, pp. 124 e sgs. Para uma exposio mais minuciosa deste dogmatism moral, que no texto, indicamos apenas em suas grandes linhas, cfr. B. JANSSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, PP. 81-130.
  8. 8. Numa frmula feliz V. DELBOS resume o pensamento de KANT. A afirmao de Deus uma exigncia ou um direito, ou uma f, indicando aqui estes termos diferentes a necessidade de um ato que funda para o sujeito a necessidade de um objeto.V. DELBOS, La Philosophie Pratique de Kant, Paris, 1905, p. 489.
  9. 9. O postulado uma proposio terica (mas que no pode, como tal, ser provada) enquanto necessariamente depende de uma lei prtica tendo a priori um valor incondicionado. Estes postulados no so dogmas tericos, mas hipteses num ponto de vista necessariamente prtico; por isso no ampliam o conhecimento especulativo mas do s idias da razo especulativa em geral uma realidade objetiva. KANT, Gesammette Schriften, t. V, pp. 122, 132.
  10. 10. Crtica da Razo Pura, Pref. 2a edio, p. 28. Deux mondes sunissent et se compltent en quelque sorte, que la pense de philosophe sefforce dembrasser dans lunit dun systme total, le monde sensible et le monde intelligible. Dun cote cest le monde de la nature suivant Newton, ou le dterminisme de la causalit mcanique ordonne les phnomnes, Cosmos rgl par des lois immanentes, cest lordre de lexperience, le domaine de la science, le monde de lentendement; de lautre cest le monde de la croyance, le monde spirituel, le systme des noumnes, le domaine de la libert, dans lequel les tres raisonnables se vouent de toute leur me la loi morale, le rgne des fins, dont Dieu est le principe suprme, le souverain lgislateur et le plus haut achvement. Le ciel toil au dessus de moi, la loi morale en moi. B. JANSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 129-130.
  11. 11. Alguns historiadores, influenciados pelo sarcstico H. HEINE, quiseram ver nas reconstrues da Crtica da Razo Prtica, uma correo tardia s destruies da 1a Crtica. A obra de KANT no teria assim obedecido a uma unidade de plano e ter-se-ia desenvolvido um pouco ventura. Um exame mais imparcial e objetivo permite estabelecer entre as duas Crticas relaes mais harmoniosas e lig-las na unidade de um pensamento que se desenvolve em continuidade consigo mesmo. Cfr. E.BOUTROUX, La Morale de Kant et les Temps Prsents, em Etudes dHistoire de la Philosophie Allemande, Paris, 1926, pp. 79-93. V. DELBOS, Les Harmonies de la Pense Kantienne daprs la Critique de la Facult de Juger, na Revue de Mtaphysique et de Moral, XII, 1904; F. PICAVET, no Prefcio trad. da Critique de la Raison Pratique; B. JANSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 112-117.
  12. 12. Critique de la Raison Pratique, tr. Picavet, p. 16.
  13. 13. Critique de la Raison Pure, tr. Tremesaygues, p. 334.
  14. 14. KUNO FISCHER, HAMANN, RINK, NICOLAI, etc. DE PLATO e ARISTTELES possua algumas idias muito vagas, esquematizadas pelos compndios escolares. LEIBNIZ conhecia S. TOMS e lera SUREZ. Para KANT toda a filosofia crist era um livro fechado com 7 sigilos. Nem mesmo ESPINOSA ele estudara.
  15. 15. Crtica da Razo Pura, Intr. V, p. 8 (italiano).
  16. 16. Il ny a pas non plus de construction dans lintuition pure au sens kantien, car sil est bien vrai que les mathmatiques sont telles par nature que les jugements doivent y tre vrifiables par limagination (deducibilia ad imaginationem, cf. In Boet. de Tim., p. 6. a 2), et que par suite elles supposent une construction dans lespace, cependant cette construction nest que pour ltablissement des concepts eux-mmes: ce nest pas raison de cette construction, cest raison des exigences des concepts, et par une vritable dduction syllogistique, quon y lie progressivement les concepts les uns aux autres. J. MARITAIN, Rflexions sur lInteligence, Paris, 1926, p. 72.
  17. 17. Com sua ponta de humorismo habitual, a amenizar a expresso de um pensamento profundo disse PAPINI: KANT si perduto in quella vana selva del contradittorio e dellinconcepibile ove tanti filosofi hanno trovato la morte e KANT stato una guida che s smarrita, um confusionario fornito de metodo che s ingannato com gravit e s suicidato per vivere ... Sulla sua tomba perduta tra le nebbie prussiane un ironico epigrafista potrebe screvere: qui dorme un architetto senza fortuna, che uccise coloro che doveva difendere. G. PAPINI, Il crepuscolo dei filosofi, Milano, 1906, p. 44.
  18. 18. JACOBI, Werke, Leipzig, 1812, II, p. 303. Para demonstrar a existncia da coisa em si, a agir sobre os sentidos, KANT admite o valor objetivo do princpio de causalidade, que depois declara sinttico a priori, isto , sem valor objetivo e extramental.
  19. 19. Assim, o apelo para a autoridade de KANT dispensa a muitos modernos de um exame direto e sereno dos argumentos racionais. LITTR: Kant et les nominalistes ont fait table rase ds arguments metaphysiques. Philosophie Positive, I, p. 238. The fatal defects all these (das provas tradicionais) have, it is almost universally concedet, been clearly expressed once for all by KANT, J. WARD, Pluralism and Theism, 1920, p. 406. The bare fact that all idealists since KANT felt entitled to scant or neglect them, shows they are not solid enough to serve as religions: all sufficient foundation. W. JAMES, Varieties of Religious Experience, p. 437.
  20. 20. LUnique Fondement Possible dune Dmonstration de lExistence de Dieu, tr. FESTUGIRE, p. 136. A questo da existncia de Deus conservou sempre um lugar central nas preocupaes de KANT. Costumam os historiadores distinguir 3 perodos na evoluo de seu pensamento: o 1o, em que se acha ainda sob influncia do racionalismo wolfiano, estende-se de 1740 a 1760; o 2o compreende o decnio seguinte (1760 1770) em que se fazem sentir mais poderosas as influncias do empirismo ingls (LOCKE e HUME); o 3o abrange a elaborao e o desenvolvimento do seu sistema pessoal do criticismo. Em todas estas fases KANT tratou da existncia de Deus. Na tese para obter a licena de ensinar: Principiorum cognitionis metaphysicae nova dilucidatio (1855), o jovem filsofo defende o valor dos primeiros princpios da metafsica, com todas as conseqncias. Em 1763 publica um estudo sobre o nico fundamento possvel de uma demonstrao da existncia de Deus (Der enizig mgliche Berveisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes), em que rejeita outras provas e conserva como eficaz a baseada na exigncia de um fundamento para a possibilidade das coisas. No ano seguinte, 1764, volta sobre o assunto num Estudo sobre a evidncia dos princpios da teologia natural e da moral (Unterruchungen ueber die Deutlichkeit der Grundrtze der natrlichen Theologie und der Moral), onde afirma no 1o da 4a considerao os primeiros princpios da teodicia natural so suscetveis da maior evidncia filosfica. (Trume eines geistersehers, erlntert durch Trume des Metaphysik). Nos Sonhos de um visionrio esclarecidos pelos sonhos da metafsica (1766) j se anunciam mais acentuadas as tendncias crticas, mas ainda na dissertao tese de 1770: De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis que um prefcio remoto da Crtica ainda se afirma a possibilidade de atingir realmente o mundo inteligvel. Com as duas Crticas (1781, 1788) a existncia de Deus passa definitivamente do domnio especulativo para o prtico: cessa de ser uma verdade demonstrada ou demonstrvel para impor-se crena, como postulado indispensvel. Esta representa a atitude definitiva de KANT: agnosticismo especulativo, dogmatismo moral. Ainda em 1791 ele voltava a insistir no Fracasso de todas as tentativas filosficas em teodicia (Ueber das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodicee). Nos ltimo anos observa-se uma mudana sensvel na apreciao do cristianismo. O racionalista frio e o estico austero sente-se subjugado pelo seu poder de atrao. Num opsculo sobre o fim do mundo (Dans Ende aller Dnige), publicado em 1794, lem-se expresses como estas: Alm do profundo respeito que lhe atrai irresistivelmente a santidade de seus preceitos, o Cristianismo tem ainda em si algo de amvel. O amor, como livre aceitao da vontade de outrem a ttulo de preceito, aparece, apesar de tudo, como auxiliar indispensvel da imperfeio humana para obrig-lo a cumprir o que a razo prescreve como lei ... O Cristianismo empreende de modo geral fazer amar o cumprimento do dever e o consegue. Ainda hoje, continua KANT, no sculo mais iluminado que a humanidade conheceu, o Cristianismo conserva sempre o seu prestgio. Mas se o anticristo viesse a prevalecer, implantando o seu reino sobre o medo e o egosmo, o Cristianismo ao qual estava reservado tornar a religio universal, seria abandonado pelo destino: no ponto de vista moral, assistir-se-ia a um fim absurdo de todas as coisas. La Fin de Toutes Choses, tr. FESTUGIRE, Paris, 1931, pp. 174-177
 

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