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A Igreja e a Economia

A IGREJA A ECONOMIA

Everton Boelter da Silva[1]

Resumo: Durante sculos houve indagaes para definir uma teoria econmica que fosse justa e que no visasse exploraes nos preos de mercadorias. Mas, por muitas vezes, foram propostas teorias que no refletiam coerncia. Ento, muitos pensadores catlicos que precederam Adam Smith, contriburam com o pensamento econmico no Ocidente. A Igreja catlica props teorias que no exploravam nem o comprador nem o vendedor.

Segundo Joseph Schumpeter, economista do sculo XX, os escolsticos foram os que chegaram mais perto de serem os fundadores da cincia econmica. Ele homenageou, na sua Histria da anlise econmica, as contribuies dos escolsticos. Murray N. Rothbard tambm dedicou parte de sua obra sobre o pensamento econmico s contribuies dos escolsticos, os quais alcanaram o auge na Escola[2] austraca de economia.

Antes de analisarmos as contribuies dos escolsticos, devemos estudar o trabalho, muito ignorado, de estudiosos catlicos que precederam os citados anteriormente. Jean Buridan (1300-1358), por exemplo, que foi reitor da Universidade de Paris, trouxe importantes novidades moderna teoria monetria (WOODS, 2008, p. 146). Este mostrou que o dinheiro surgiu no mercado, primeiramente como uma mercadoria, e, posteriormente, como um meio de troca, um meio de simplificar as trocas. tratava-se de encontrar uma mercadoria que pudesse ser desejada e adotada utilmente por todos (Murray apud WOODS, 2008, p. 146).

Esta mercadoria, o dinheiro, devia ser aceita por sua capacidade de satisfazer necessidades materiais. Mas devia ser durvel e que tivesse um bom valor de acordo com o peso para facilitar os acordos. Assim, Buridan iniciou classificao do valor monetrio do produto.

O discpulo de Buridan, o bispo Nicolau Oresme[3], contribuiu com a teoria monetria. Escreveu Um tratado sobre a origem, natureza e transformaes do dinheiro que foi considerado um marco na cincia monetria, pois fixou padres que no seriam superados em muitos sculos e mesmo hoje sob certos aspectos (WOODS, 2008, p. 147).

De acordo com a lei de Gresham - que teve seu princpio dito primeiramente por Buridan - se um governo valoriza mais uma moeda do que a outra, o mesmo tira de circulao a que fora desvalorizada. Segundo Oresme, o mesmo acontece atualmente, pois as pessoas passam a utilizar aquilo que o governo valoriza mais. Tambm compreendeu os efeitos da inflao e elucidou que a perda de valor da unidade monetria interfere no comrcio e enriquece o governo. Diante disso, recomendou que o governo no interviesse no sistema monetrio.

Sobre a economia monetria, os ltimos escolsticos compartilharam desse mesmo ponto de vista. E, observando o que aconteceu na Espanha no sculo XVI, com a afluncia dos metais preciosos e a alta inflao dos preos, o telogo Martin de Azpilcueta (1493-1586) escreveu:

Em pases onde h uma grande escassez de dinheiro, todas as mercadorias disponveis para a venda, mesmo que sejam equivalentes, e at a prpria mo de obra humana, so oferecidas por menos dinheiro do que em lugares onde ele abundante. Assim, vemos por experincia que, na Frana, onde o dinheiro mais escasso do que na Espanha, o po, o vinho, as roupas e o trabalho tm um valor muito menor. E, mesmo na prpria Espanha, em pocas em que o dinheiro era mais escasso, as mercadorias disponveis para venda e o trabalho custavam muito menos do que depois da descoberta das ndias, que inundou o pas de ouro e prata. A razo disso que o dinheiro vale mais onde e quando escasso do onde e quando abundante. A observao de que, como dizem alguns, a escassez de dinheiro reduz o preo dos outros produtos, tem a sua origem na circunstncia de que a excessiva valorizao do dinheiro faz com que as outras coisas paream baratas; como acontece quando um home baixo se coloca ao lado de outro muito alto: parece menor do que quando se coloca ao lado de um homem de sua mesma altura (Alejandro apud WOODS, 2008, p.149).

O cardeal Thomas de Vio, chamado Caietano (1468-1534), tambm contribuiu no mbito da teoria econmica, pois em seu tratado De cambiis (1499) procurou defender o comrcio exterior do ponto de vista moral, Caietano tambm fez notar que o valor do dinheiro no presente podia ser afetado pelas expectativas da situao do mercado no futuro (WOODS, 2008, p. 149).

Entre toda teoria da economia, amadurecia, com a ajuda dos escolsticos, a teoria do valor subjetivo. Baseando-se eles nos comentrios de Santo Agostinho, em sua obra A cidade de Deus. Este concordava com outros pensadores catlicos que diziam que o valor deriva da avaliao subjetiva dos indivduos. Esta teoria foi proposta primeiramente pelo frade franciscano Pierre de Jean Olivi (1248-1298). Ele sustentava que o preo justo de um bem resultava da avaliao subjetiva que os indivduos fizessem desse bem, da medida em que o considerasse til e desejvel para eles (WOODS, 2008, p. 150). Tal preo surgiria da interao entre o comprador e vendedor. Depois de um sculo e meio sua teoria adotada, palavra por palavra, por So Bernardo de Sena.

Segundo Luis Sarava de la Calle, no sculo XVI, essa posio foi adotada pelos ltimos escolsticos.

Aqueles que medem o justo preo trabalho, custos e riscos que corre a pessoa que comercia ou produz uma mercadoria, ou pelo custo de transporte e despesas de viagem [], ou pelo que o fabricante tem de pagar pela produo, riscos e mo de obra, cometem um grande erro, e erro ainda maior que cometem aqueles que admitem um lucro de vinte ou dez por cento. Porque o justo preo tem origem na abundncia ou escassez das mercadorias, comerciantes e dinheiro [], e no nos custos, trabalho e risco (Murray apud WOODS, 2008, p. 146).

O cardeal jesuta Juan de Lugo (1583-1660) e Luis de Molina tambm seguiram a mesma teoria. Em sua obra, Princpio da economia (1871), a qual teve forte influncia no desenvolvimento da economia, Carl Menger explicou as implicaes do valor subjetivo: se uma mercadoria perdesse seu valor para as pessoas - por exemplo, as bebidas alcolicas as mquinas que eras exclusivas para a produo dessa mercadoria no teriam valor algum, pois no teriam mais utilidades. E o valor da produo das bebidas alcolicas tem seu prprio valor derivado do seu valor subjetivo. Portanto, quando as pessoas no do o valor determinada mercadoria, no esto dando valor aos fatores de sua produo. Ainda acrescentou que o valor subjetivo no tem nada a ver com o antropocentrismo ou com o relativismo, pois a economia lida com a realidade e as implicaes das escolhas humanas.

Mas, para Karl Marx, o pai do comunismo, o valor de um produto que as pessoas precisam determinado pelo nmero de horas de trabalho empregadas na sua produo.

Marx deduziu da sua teoria do valor-trabalho a idia de que em uma economia livre, os trabalhadores eram explorados porque, sedo o seu esforo a fonte de todo o valor, os salrios que recebiam no refletiam plenamente esse esforo. Para ele, os lucros retidos pelo empregador eram totalmente imerecidos e levavam a uma injusta apropriao daquilo que, por direito, pertencia aos trabalhadores (WOODS, 2008, p. 154).

Com a ajuda dos ltimos escolsticos conseguiremos entender o erro que incorreu na teoria do valor-trabalho que foi elaborada por Marx. O valor do produto e o valor-trabalho empregado na produo do mesmo, que Marx percebeu, esto repetidamente relacionados. Ele em dizer que um bem tem seu valor derivado do trabalho empregado na sua produo, pois o correto o contrrio disso, ou seja, o valor do trabalho que deriva do valor do produto final.

Assim, percebemos que So Bernardinho de Sena e os escolsticos do sculo XVI, anteciparam e refutaram um dos maiores erros econmicos da poca moderna, pois o prprio Adam Smith, em sua exposio, deixou a entender que os bens tm seu valor proveniente do trabalho empregado nele. Rothbard foi mais longe e sugeriu que a teoria formulada por Smith no sculo XVIII alimentou a teoria de Marx.

A economia seria bem melhor se tivesse seguido a teoria dos catlicos que citamos, mas, ao contrrio dos economistas franceses e italianos, os ingleses seguiram as linhas de pensamento que culminaram em Marx.

No desenvolvimento da cincia econmica no se pode deixar fora da influncia do pensamento catlico as contribuies de Emil Kauder, pois ele procurou descobrir, na sua obra de conjunto, por que a teoria, correta, do valor subjetivo se desenvolveu entre os pensadores catlicos e a do valor-trabalho, que a incorreta, influenciou os pensadores protestantes, principalmente os anglo-saxes.

Kauder indicou na sua obra Uma histria da teoria da utilidade marginal (1965) que os protestantes foram instigados a valorizar mais a teoria do valor-trabalho devido a importncia que o protestante Calvino[4] conferiu ao trabalho. Os pensadores dos pases protestantes destacaram o trabalho como determinante do valor. Kauder diz que essa era a melhor maneira, dos filsofos socais ou economistas, para exaltar o trabalho. Assim que o valor torna-se valor-trabalho.

Segundo Kauder, John Locke e Adam Smith absorveram as idias calvinistas que predominavam no seu meio cultural. Smith, por exemplo, sempre simpatizou com o presbiterianismo (que era um calvinismo organizado), e essa simpatia pode bem explicar a nfase que ps no trabalho como fator determinante do valor (Kauder apud WOODS JR, 2008, p.156).

Os pases catlicos influenciados pela linha de pensamento aristotlica e tomista no tiveram a mesma atrao pela teoria do valor-trabalho. Tanto Aristteles quanto Santo Toms, viam a atividade econmica como meios para proporcionar o prazer e a felicidade. Por isso que os objetivos da economia eram subjetivos. Segundo Kauder, devido a essa teoria - do valor subjetivo o valor tem a funo de mostrar quanto de prazer pode derivar dos bens econmicos (WOODS JR, 2008, p.157).

Hugo Grotius, protestante holands, citou os pensadores do sculo XVII e a sua influncia nesse sculo persistiu na obra de influentes jesutas, tais como Leonardo Lessius e Juan de Lugo (WOODS JR, 2008, p.157). No sculo seguinte, na Itlia, houve forte influncia no padre Ferdinando Galiani, o qual por vezes citado como introdutor das idias de utilidade e escassez como fatores decisivos do preo Antonio Genovesi tambm deveu muito ao pensamento escolstico. O conceito de utilidade, valor e de mercado foi espalhado por toda a Frana a partir de Galiani.

Alejandro Chafuen, em seu livro F e liberdade: o pensamento econmico dos ltimos escolsticos (2003), mostra que esses pensadores do sculo XVI e XVII defenderam os princpios da liberdade econmica e da economia de livre mercado. Sobre preos, salrios, dinheiro e a teoria do valor, o melhor pensamento econmico dos ltimos sculos foi antecipado pelos ltimos escolsticos. Portanto, uma tolice dizer que a idia do livre mercado tenha sido desenvolvida no sculo XVIII por anti-catlicos fanticos.

REFERNCIA BIBLIOGRFICA

WOODS JR, Thomas E. Como a Igreja Catlica construiu a civilizao ocidental. Traduo de lcio Carillo. So Paulo: Quadrante, 2008. p. 222.


[1] Acadmico do segundo perodo do Curso de Filosofia do Instituto Sapientia de Filosofia ISF.

[2]Uma escola do pensamento econmico que se desenvolveu em fins do sculo XIX e que continua viva nos dias atuais. (Esta escola pode gloriar-se de uma srie de brilhantes economistas, desde Carl Menger at Eugen Von Bhm-Bawerk e Ludwig Von Mises. Um seus membros mais destacados, F.A. Hayek, ganhou o Prmio Nobel de economia em 1974) (WOODS JR, 2008, p. 146).

[3]Polifactico expert em matemtica, astronomia e fsica, escreveu Um tratado sobre a origem, natureza e transformao do dinheiro, que foi considerado um marco da cincia monetria, pois fixou padres que no seriam superados em muitos sculos e mesmo hoje, sob certos aspectos. Tambm foi chamado o pai e fundador da cincia monetria (WOODS JR, 2008, p. 147).

[4] Para Calvino, o trabalho fosse de que natureza fosse gozava de uma aprovao divina e era um campo decisivo para que o homem pudesse dar glria a Deus (WOODS JR, 2008, p. 155).

 

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