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As relaes entre f e razo (IV)

Fonte: http://contraimpugnantes.blogspot.com/2009/12/as-relacoes-entre-fe-e-razao-iv.html

Sidney Silveira
(
continuao)

A posio de Toms de Aquino com relao origem da f tem como fundamento a sua gnosiologia realista, segundo a qual o conhecimento a posse da verdade provm, in primis, de um processo de abstrao das qididades materiais dos entes, pela inteligncia humana. Ou seja: no h atalhos intuitivos que nos permitam chegar ao conceito ( forma entis); que nos permitam, ao menos, ter um vislumbre da essncia dos entes. Esta ltima s nos acessvel a partir da observao do modo de operao de cada ente, na ordem do ser. E, mesmo assim, a aquisio desse conhecimento imperfeita, incompleta, pois a verdade em si inesgotvel, razo pela qual, com certa dose de ironia, diz o Doutor Comum em sua Exposio sobre o Credo que nenhum filsofo jamais chegou a esgotar sequer a essncia de uma mosca.


Essa posio, como sabemos, ocasionou vrias inimizades a Santo Toms de Aquino no seio da prpria Igreja, conforme confessara o bispo John Peckham, um dos seus algozes, no Chartularium universitatis parisiensis, obra de referncia para os bigrafos de Santo Toms. Foi um duro golpe desferido na noo de iluminao divina defendida por telogos agostinianos (muitos pertencentes, no sculo XIII, ordem franciscana), segundo a qual chegamos verdade a respeito de qualquer coisa graas a um influxo imediato de Deus na inteligncia humana.

DISTINO TOMISTA COM RELAO AOS CONCEITOS DA F E DA RAZO


Depois que entrou em cena a gnosiologia aristotlico-tomista, a Igreja pde fazer uma distino precisa entre essas duas ordens complementares: a f tem a sua fonte na iluminao da graa divina (lumem grati); a razo, unicamente na abstrao da inteligncia (devida fundamentalmente lumen rationis naturalis). Para o homem, portanto, d-se o desenvolvimento da f em um nico sentido: artigos que noutro tempo eram cridos implicitamente (por estar contidos em outros, mas no de forma evidente) chegam, mais tarde, a ser expressos de forma explcita. No se trata, aqui, de evoluo dos dogmas, como imaginam os pssimos telogos modernistas, mas do esclarecimento de alguns pontos da f na medida em que a f supe, como objeto material, uma obscuridade interna daquilo em que se cr (cfme. Suma Teolgica, II-II, q.1., a. 5).

Sendo assim, se a verdade da f no internamente evidente (nem direta nem indiretamente), a inteligncia no pode nada mais do que lhe prestar assentimento (ou no). Mas nunca, jamais, pode ela demonstrar o contedo da f, que est alm de suas possibilidades de escrutnio intelectual. No entanto, a razo desse assentimento da f muito diversa da do saber: a autoridade divina, que o autntico objeto formal da f seja para doutos telogos, seja para velhinhas analfabetas. Em ambos os casos, assente-se a algo no evidente. A f , pois, daquilo que no se v (non visum), enquanto a razo parte daquilo que se v com os olhos da inteligncia (visum).


Como no nosso propsito aprofundar este tema, mas apenas expressar alguns princpios, vale dizer que a cincia (adquirida pela inteligncia) e a f se distinguem com relao a seus conceitos da seguinte forma:


Por seu objeto material: razo (visum); f (non visum)
Por seu objeto formal: razo (
evidncia); f (autoridade divina)
Por seus efeitos: razo (assentimento por necessidade racional); f (assentimento livre)

justamente esse assentimento livre a uma verdade no evidente para a inteligncia que faz com que a f seja meritria. Ela , em sntese, o sim da inteligncia humana ao influxo da graa divina. Em contrapartida, no se pode dizer que haja propriamente mrito em assentir a algo por necessidade racional (como para concluir que 2+2=4).

A maior descoberta cientfica de todos os tempos, neste sentido, por ser de ordem inferior, de valor infinitamente menor do que o sim de Maria ao Anjo da Anunciao.

Infinitamente inferior ao nosso sim a qualquer dos artigos da f que salva.

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