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As relaes entre f e razo (II)

Fonte: http://contraimpugnantes.blogspot.com/2009/11/as-relacoes-entre-fe-e-razao-ii.html

Sidney Silveira

c) Com relao ao domnio da f


Como corolrio das duas confuses anteriores est a perda da viso de qual seja o verdadeiro domnio da f. Sim, pois se a f e a cincia se reduzem a uma mesma origem (o saber humano), e se os conceitos de cada uma se identificam na raiz na exata medida em que a razo passa a atribuir-se a possibilidade de provar a f , obviamente a f sai de sua fonte sobrenatural e, por assim dizer, se naturaliza.


Na imensa maioria dos casos, tal naturalismo acaba colocando a f num mesmo plano do conhecimento cientfico, o que absurdo. Soube eu de um telogo brasileiro, por exemplo, para quem o mar vermelho se abriu graas a um fenmeno natural o que muito mais difcil de crer. Ou seja: no exato instante em que Moiss rogou a Deus, um fenmeno natural (no explicado) dividiu as guas para o povo hebreu passar, fenmeno esse interrompido exatamente na hora em que os egpcios passavam. Papa-lguas!! E as teorias loucas se multiplicam.


Vale dizer que isto no prerrogativa do nosso tempo. J na Idade Mdia, vrios erros decorrentes da m-resoluo dada ao problema das relaes entre f e razo grassavam, com a diferena especfica de que, ento, o Magistrio se pronunciava solenemente, condenando as heresias e chamando os fautores do erro ao arrependimento e retratao ou, ento, impondo-lhes o silncio com relao s suas doutrinas caso no quisessem ser excomungados.


A ttulo de exemplo, vejamos algumas dessas heresias conseqentes confuso entre f e razo, com as quais, a propsito, Santo Toms teve brilhantemente de se confrontar:

1- Negao da Trindade;
2- necessitarismo da ao de Deus na criao do mundo;
3- eternidade do mundo;
4- negao do primeiro homem;
5- negao da potencialidade na atividade dos anjos;
6- negao da Providncia divina em relao a cada coisa do mundo;
7- proposio de um nico intelecto possvel para todos os homens;
8- pluralidade das formas substanciais no homem individual;
9- influxo necessrio e determinante dos astros sobre as potncias superiores da alma humana (inteligncia e vontade);
10- tese de que o homem conhece as coisas particulares por iluminao divina, e no por abstrao de suas qididades materiais, etc.


Todas essas opinies, direta ou indiretamente, partem da confuso acerca de quais sejam os objetos da f e os da razo, e os limites e direitos de cada uma.


Assim, se Maria sempre Virgem, se Ado foi o primeiro homem, se Deus criou o mundo e todas as espcies de animais ex nihilo, se Maria disse sim ao Anjo da Anunciao, se o Esprito Santo procede do Pai e do Filho, etc., so verdades de f que no cabe razo provar, embora a cincia teolgica possa extrair alguns corolrios dessas verdades, com o auxlio luxuoso da filosofia, ancilla theologi.

Veremos, no prximo texto, a posio de Santo Toms no tocante a este tema de importncia capital, a partir das distines entre f e razo e entre teologia e filosofia, que em sua teoria so complementares. E veremos tambm que o Aquinate jamais admite o Credo ut intelligam anselmiano como se representasse uma transformao do contedo da f em algo cientfico.

Deixemos consignados, desde logo, que de acordo com o Doutor Comum h as seguintes distines:


a) Quanto ao objeto material: a razo parte do visum, e a f, do non visum (explicaremos a ambos);
b) Com relao ao objeto formal: a razo parte de evidncias, e a f da autoridade divina;
c) Com relao a seus efeitos: a razo anui s concluses por uma espcie de necessidade intrnseca, graas s concluses que a ela se impem a partir de princpios e evidncias, e a f chega a suas concluses livremente, pois no parte de nenhuma evidncia, no obstante tenha a ser favor os elementos de credibilidade.

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