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Alocuo "Un Ora"

Na manh de 22 de Novembro de 1951, o Santo Padre, vindo de Castel Gandolfo, concedeu uma audincia solene, na sala do Consistrio, Academia Pontifcia de Cincias, por ocasio da "Semana de Estudo do problema dos microssismos, organizada em Roma por esta Academia. Depois do discurso do Santo Padre, o M. R. P. Agostinho Gemelli, Presidente da Academia Pontifcia de Cincias, agradeceu ao Sumo Pontfice e fez meno, enumerando os seus trabalhos particulares, dos acadmicos pontifcios falecidos durante o ano. Nossa traduo foi feita sobre o texto italiano aparecido em "L'Osservatore Romano" a 23 de Novembro. Os subttulos so do texto italiano, a numerao marginal corresponde aos pargrafos do texto.

DOCUMENTOS PONTIFCIOS

-------------------------------85.-------------------------------

Pio XII

Sobre as Provas da Existncia de Deus

Luz da Cincia Natural Moderna

(Alocuo "Un ora")

1952

DISCURSO

dirigido, a 22 de Novembro de 1951, Pontifcia Academia das Cincias

Introduo

1. Uma hora de serena alegria, pela qual somos grato ao Onipotente, -Nos oferecida por esta reunio da Pontifcia Academia das Cincias, e ao mesmo tempo d-nos a grata oportunidade de palestrarmos com um escol de eminentes Purpurados, de ilustres Diplomatas e de insignes Personagens, e especialmente convosco, Acadmicos Pontifcios, bem dignos da solenidade desta assemblia, porquanto, indagando e desvendando os segredos da natureza, e ensinando os homens a dirigirem para o seu bem as foras dela, pregais ao mesmo tempo, com a linguagem dos algarismos, das frmulas, dos descobrimentos, as inefveis harmonias do Deus sapientssimo.

2. De fato, a cincia verdadeira, contrariamente a arriscadas afirmaes do passado, quanto mais avana tanto mais descobre Deus, como se Ele estivesse vigiando espera, por trs de cada porta que a cincia abre. Antes, queremos dizer que, deste progressivo descobrimento de Deus, operado nos incrementos do saber, no somente se beneficia o cientista, quando pensa como filsofo e como poderia abster-se disto?, mas tambm tiram proveito todos queles que participam dos novos achados ou os tomam para objeto das suas consideraes; e, de modo especial, tiram vantagem dele os genunos filsofos, visto como, tomando das conquistas cientficas os impulsos para as suas especulaes racionais, da auferem maior segurana nas suas concluses, mais claras ilustraes nas possveis sombras, mais convincentes subsdios para dar s dificuldades e s objees uma resposta sempre mais satisfatria.

Natureza e fundamentos das provas da existncia de Deus

3. Assim movido e guiado, o intelecto humano vai ao encontro dessa demonstrao da existncia de Deus que a sabedoria crist reconhece nos argumentos filosficos, joeirados nos sculos de gigantes do saber, e que para vs bem conhecida na apresentao das "cinco vias" que o Anglico Doutor S. Toms oferece como itinerrio expedito e seguro da mente a Deus. Argumentos filosficos, dissemos; mas nem por isto apriorsticos, como de tal os acusa um ingeneroso e incoerente positivismo. Eles operam sobre realidades concretas e certificadas pelos sentidos e pela cincia, mesmo se fora probante adquirem do vigor da razo natural.

4. De tal arte, filosofia e cincias desenvolvem-se com atividades e mtodos anlogos e conciliveis, valendo-se de elementos empricos e racionais em diversa medida e conspirando em harmnica unidade para o descobrimento da verdade.

5. Mas, se a primitiva experincia dos antigos pde oferecer razo argumentos suficientes para a demonstrao da existncia de Deus, sucede que, com a ampliao e o aprofundamento do campo da prpria experincia, mais cintilante e mais ntido refulge agora o vestgio do Eterno no mundo visvel. Profcuo se afigura, pois, reexaminar, sobre a base das novas descobertas cientficas, as clssicas provas do Anglico, especialmente as deduzidas do movimento e da ordem do universo (S. Th., 1 p., q. 2, art. 3); isto , investigar se e quanto o conhecimento mais profundo da estrutura do macrocosmo e do microcosmo contribui para reforar os argumentos filosficos; e considerar depois, por outra parte, se e at que ponto foram eles, como no raras vezes se afirma, abalados pelo fato de haver a fsica moderna formulado novos princpios fundamentais, abolido ou modificado conceitos antigos cujo sentido, no passado, era talvez julgado fixo e definitivo, como, por exemplo, o tempo, o espao, o movimento, a causalidade, a substncia, conceitos sumamente importantes para a questo que ora nos ocupa. Mais do que de uma reviso das provas filosficas, trata-se, pois, aqui de perscrutar as bases fsicas e, por questo de tempo, deveremos necessariamente restringir-Nos a algumas apenas, das quais aqueles argumentos derivam. E no h que temer surpresas: a prpria cincia no pretende sair desse mundo que, hoje como ontem, se apresenta com aqueles cinco "modos de ser", dos quais toma impulso e nervo a demonstrao filosfica da existncia de Deus.

Duas essenciais notas caractersticas do cosmo

6. Destes "modos de ser" do mundo que nos circunda, modos notados com maior ou menor compreenso, mas com igual evidncia, pelo filsofo e pela inteligncia comum, h dois que as cincias modernas maravilhosamente sondaram, averiguaram e aprofundaram alm de qualquer expectativa: l) a mutabilidade das coisas, inclusive o seu nascimento e o seu fim; 2) a ordem de finalidade que reluz em cada ngulo do cosmo. Notabilssimo o contributo assim prestado pelas cincias s duas demonstraes filosficas que sobre elas versam e que constituem a primeira e a quinta vias. primeira delas, a fsica, especialmente, tem conferido uma inesgotvel mina de experincias, revelando o fato da mutabilidade em profundos recessos da natureza, onde anteriormente nenhuma mente humana podia sequer suspeitar-lhe a existncia e a amplitude, e fornecendo uma multiplicidade de fatos empricos que so um valiosssimo subsdio para o raciocnio filosfico. Dizemos subsdio porque, ao contrrio, a direo das mesmas transformaes, embora certificadas pela fsica moderna, parece-Nos superar o valor de uma simples confirmao, e como que atinge a estrutura e o grau de um argumento fsico em grande parte novo e, para muitas mentes, mais aceitvel, persuasivo e agradvel.

7. Com semelhantes riquezas, as cincias, especialmente as astronmicas e biolgicas, tm, nos ltimos tempos, proporcionado ao argumento da ordem um tal acervo de conhecimentos e uma tal viso, por assim dizer inebriante, da unidade conceituai que anima o cosmo e da finalidade que lhe dirige o caminho, que dessarte antecipa ao homem moderno aquele gudio que o Poeta imaginava no cu empreo, quando viu como em Deus "se interna ligado com amor num s volume o que pelo universo se folheia" (Paraso 33, 85-87).

8. Todavia, a Providncia disps que a noo de Deus, to essencial vida de cada homem, como facilmente se pode inferir de um simples olhar lanado sobre o mundo, que no lhe compreender a voz estultcia (cf. Sab 13, 1-2), assim receba confirmao de todo aprofundamento e progresso dos conhecimentos cientficos.

9. Querendo, pois, dar aqui uma rpida amostra do precioso servio que as cincias modernas prestam demonstrao da existncia de Deus, restringir-Nos-emos primeiramente ao fato das mutaes, realando-lhe principalmente a amplitude, a vastido e, por assim dizer, a totalidade que a fsica moderna verifica no cosmo inanimado; depois, deter-Nos-emos sobre o significado da direo delas, qual ficou igualmente certificada. Ser como que prestar ouvido a um pequeno concerto do imenso universo, que, entretanto, tem voz bastante para cantar "a glria d'Aquele que tudo move" (Par. 1, 1).

A) A mutabilidade do cosmo. Fato da mutabilidade

a) no macrocosmo:

10. Ao primeiro aspecto, justamente causa admirao o ver como, medida que as cincias tm progredido, o conhecimento do fato da mutabilidade tem ganho sempre maior terreno tanto no macrocosmo como no microcosmo, como que confirmando com novas provas a teoria de Herclito: "Tudo passa": panta rhei. Como conhecido, a prpria experincia cotidiana mostra uma ingente quantidade de transformaes no mundo prximo ou remoto que nos circunda, sobretudo os movimentos locais dos corpos. Mas, alm destes verdadeiros e prprios movimentos locais, so, do mesmo modo, facilmente visveis as multiformes mudanas qumico-fsicas, por exemplo a mutao do estado fsico da gua nas suas trs fases de vapor, lquido e gelo; os profundos efeitos qumicos mediante o uso do fogo, cujo conhecimento remonta idade pr-histrica; a desagregao das pedras e a corrupo dos corpos vegetais e animais. A tal experincia comum veio juntar-se a cincia natural, que ensinou a compreender estes e outros semelhantes acontecimentos como processos de destruio ou de construo das substncias corpreas nos seus elementos qumicos, ou seja nas suas mais pequenas partes, os tomos qumicos. Antes, indo mais alm, ela tornou manifesto como esta mutabilidade qumico-fsica de modo algum se restringe aos corpos terrestres, como era a crena dos antigos, mas se estende a todos os corpos do nosso sistema solar e do grande universo, que o telescpio, e ainda melhor o espectroscpio, tm mostrado serem formados pelas mesmas espcies de tomos.

b) no microcosmo:

11. Contra a indiscutvel mutabilidade da natureza mesmo inanimada, ainda se erguia, contudo, o enigma do inexplorado microcosmo. De feito, parecia que, diferentemente do mundo animado, a matria inorgnica fosse, em certo sentido, imutvel. As suas mais pequenas partes, os tomos qumicos, podiam, sim, unir-se entre si nos mais diversos modos, porm pareciam gozar do privilgio de uma eterna estabilidade e indestrutibilidade, saindo inalterados de qualquer sntese e anlise qumica. H cem anos atrs, eles ainda eram julgados simples, indivisveis e indestrutveis partculas elementares. O mesmo se pensava das energias e das foras materiais do cosmo, sobretudo com base nas leis fundamentais da conservao da massa e da energia. Alguns naturalistas julgavam-se at autorizados a formular em nome da sua cincia uma fantstica filosofia monista, cuja triste lembrana est ligada, entre outros, ao nome de Ernst Haeckel. Porm mesmo no seu tempo, em fins do sculo passado, tambm esta concepo simplista do tomo qumico foi transtornada pela cincia moderna. O crescente conhecimento do sistema peridico dos elementos qumicos, o descobrimento das irradiaes corpusculares dos elementos radioativos, e muitos outros fatos semelhantes, mostraram que o microcosmo do tomo qumico, com dimenses da ordem do dcimo milionsimo de milmetro, teatro de contnuas mutaes, no menos que o macrocosmo por todos bem conhecido.

na esfera eletrnica:

12. E, primeiramente, o carter da mutabilidade foi verificado na esfera eletrnica. Da estrutura eletrnica do tomo emanam irradiaes de luz e de calor que so absorvidas pelos corpos externos, correspondentemente ao nvel de energia das rbitas eletrnicas. Nas partes exteriores desta esfera efetua-se tambm a ionizao do tomo e a transformao da energia na sntese e na anlise das combinaes qumicas. Mas ento podia-se supor que estas transformaes qumico-fsicas ainda deixassem um refgio estabilidade, no atingindo o prprio ncleo do tomo, sede da massa e da carga eltrica positiva, pelas quais determinado o lugar do tomo qumico no sistema natural dos elementos, e onde pareceu encontrar-se como que o tipo do absolutamente estvel e invarivel.

e no ncleo.

13. Mas j nos albores do novo sculo, a observao dos processos radioativos, a atribuir-se, em ltima anlise, a uma espontnea desintegrao do ncleo, leva a excluir um tal tipo. Verificada, pois, a instabilidade at no mais profundo recesso da natureza conhecida, restava todavia um fato que deixava perplexos os observadores, parecendo que o tomo era inatacvel ao menos pelas foras humanas, visto haverem, em princpio, falhado todas as tentativas de lhes acelerar ou deter a natural desagregao radioativa, ou mesmo de desintegrar ncleos no-ativos. A primeira e assaz modesta desintegrao do ncleo (de azoto) remonta a apenas trs decnios; e s h poucos anos, aps ingentes esforos, foi possvel efetuar em considerveis quantidades processos de formao e de decomposio de ncleos. Embora este resultado (que, quando serve s obras de paz, certamente se erige em ttulo de louvor para o nosso sculo) no represente no campo da fsica nuclear prtica seno um primeiro passo, todavia com ele assegurada para a nossa considerao uma importante concluso: os ncleos atmicos so, realmente, para muitas ordens de grandeza, mais firmes e mais estveis do que as composies qumicas ordinrias, porm, no obstante isto, so tambm maximamente sujeitos a semelhantes leis de transformao e, portanto, mutveis.

14. Ao mesmo tempo, pde-se verificar que tais processos tm a maior importncia na economia da energia das estrelas fixas. No centro do nosso sol, por exemplo, opera-se, segundo Bethe, numa temperatura que gira em torno dos vinte milhes de graus, uma reao em cadeia fechada, na qual quatro ncleos de hidrognio se unem num ncleo de hlio. A energia que assim se libera vem a compensar a perda devida irradiao do prprio sol. Mesmo nos modernos laboratrios fsicos consegue-se, mediante o bombardeio com partculas dotadas de altssima energia ou com neurnios, efetuar transformaes de ncleos, como se pode ver no exemplo do tomo de urnio. A este propsito, cumpre outrossim mencionar os efeitos da radiao csmica, que pode desagregar os tomos mais pesados, desprendendo assim, no raras vezes, enxames inteiros de partculas subatmicas.

15. Quisemos citar apenas poucos exemplos, capazes entretanto de pr fora de qualquer dvida a expressa mutabilidade do mundo inorgnico, grande e pequeno: as mltiplas transformaes das formas de energia, especialmente nas decomposies e combinaes qumicas no macrocosmo; e, no menos, a mutabilidade dos tomos qumicos at partcula subatmica dos seus ncleos.

O eternamente imutvel

16. O cientista de hoje, mergulhando o olhar no interior da natureza mais profundamente do que o seu predecessor de cem anos atrs, sabe, pois, que a matria inorgnica, por assim dizer na sua medula mais ntima, est marcada com o cunho da mutabilidade, e que portanto o seu ser e o seu subsistir exigem uma realidade inteiramente diversa e, por sua natureza, invarivel.

17. Assim como num quadro em claro-escuro as figuras ressaltam do fundo escuro, s desse modo obtendo o pleno efeito de plstica e de vida, assim tambm a imagem do eternamente imutvel emerge, clara e esplendente, da torrente que, no macro e no microcosmo, arrebata consigo todas as coisas e as transtorna numa intrnseca mutabilidade que nunca pra. O cientista que se detm margem dessa imensa torrente, acha repouso naquele grito de verdade com que Deus se definiu a si mesmo: "Eu sou quem sou" (x 3, 14), e que o Apstolo louva como "Pater luminum, apud quem non est transmutatio neque vicissitudinis obumbratio" (Tgo 1, 17).

B) A direo das transformaes

a) no macrocosmo: a lei da entropia.[1]

18. Mas a cincia moderna no somente alargou e aprofundou os nossos conhecimentos sobre a realidade e a amplitude da mutabilidade do cosmo; oferece-nos tambm preciosas indicaes acerca da direo segundo a qual se realizam os processos na natureza. Ao passo que, ainda h cem anos, especialmente depois do descobrimento da lei da constncia, se pensava que os processos naturais fossem reversveis, e, por isto, segundo os princpios da estrita causalidade ou, melhor, determinao da natureza, considerava-se possvel uma sempre ocorrente renovao e rejuvenescimento do cosmo; com a lei da entropia, descoberta graas a Rodolfo Clausius, veio-se a conhecer que os processos naturais espontneos esto sempre unidos a uma diminuio da energia livre e utilizvel; o que, num sistema material fechado, deve conduzir finalmente cessao dos processos em escala macroscpica. Este destino fatal, que somente hipteses s vezes sobejamente gratuitas, como a da criao contnua supletiva, se esforam por poupar ao universo, mas que, ao invs, ressalta da experincia cientfica, postula eloqentemente a existncia de um Ente necessrio.

b) no microcosmo:

19. No microcosmo, esta lei, estatstica no fundo, no tem aplicao, e, alm disto, ao tempo da sua formulao quase nada se conhecia da estrutura e do comportamento do tomo. Todavia, a mais recente investigao sobre o tomo, e outrossim o inesperado desenvolvimento da astrofsica, possibilitaram neste campo surpreendentes descobrimentos. O resultado no pode ser aqui seno brevemente indicado, e que tambm ao desenvolvimento atmico e intra-atmico claramente consignado um sentido de direo.

20. Para ilustrar este fato, bastar recorrer ao j mencionado exemplo do comportamento das energias solares. A estrutura eletrnica dos tomos qumicos na fotosfera do sol desprende, a cada segundo, uma gigantesca quantidade de energia radiante no espao circunstante, do qual no retorna. A perda compensada no interior do sol por meio da formao de hlio de hidrognio. A energia que com isto se torna livre provm da massa dos ncleos de hidrognio, a qual, neste processo, em pequena parte (7%) se converte em energia equivalente. O processo de compensao desenvolve-se, pois, a expensas da energia, que originariamente, nos ncleos de hidrognio, existe como massa. Assim, no curso de bilhes de anos, lenta mas irreparavelmente, tal energia transforma-se em radiaes. Coisa semelhante acontece em todos os processos radioativos, quer naturais, quer artificiais. Mesmo aqui, pois, no estrito e prprio microcosmo, verificamos uma lei que indica a direo da evoluo, e que anloga lei da entropia no macrocosmo. A direo da evoluo espontnea determinada mediante a diminuio da energia utilizvel na estrutura e no ncleo do tomo, e at agora no se conhecem processos capazes de compensar ou de anular tal degradao, por meio da formao espontnea de ncleos de alto valor energtico.

C) O universo e seus desenvolvimentos

no futuro:

21. Portanto, se o cientista volve o olhar do estado presente do universo para o futuro, mesmo remotssimo, v-se forado a verificar, no macrocosmo como no microcosmo, o envelhecimento do mundo. No curso de bilhes de anos, at mesmo as quantidades de ncleos atmicos aparentemente inesgotveis perdem energia utilizvel, e, para falar figuradamente, a matria aproxima-se de um vulco extinto e escoriforme. E vem a plo pensar que, se o cosmo presente, hoje to pulsante de ritmos e de vida, no suficiente para, como se viu, dar razo de si, tanto menos poder faz-lo o cosmo sobre o qual houver passado, a seu modo, a asa da morte.

no passado:

22. Voltemos agora o olhar para o passado. medida que se retrocede, a matria apresenta-se sempre mais rica de energia livre, e teatro de grandes transtornos csmicos. Assim, tudo parece indicar que o universo material teve, desde tempos finitos, um poderoso incio, provido como estava de uma abundncia inimaginavelmente grande de reservas energticas, em virtude das quais, primeiro rapidamente, depois com crescente lentido, evolveu para o estado presente.

23. Apresentam-se, pois, espontneos, mente, dois quesitos: Est a cincia em condies de dizer quando teve lugar esse poderoso princpio do cosmo? E qual era o estado inicial, primitivo, do universo?

24. Os mais excelentes peritos da fsica do tomo, em colaborao com os astrnomos e com os astrofsicos, tm-se esforado por fazer luz sobre estes dois rduos, mas sobremodo interessantes problemas.

D) O princpio no tempo

25. Antes de tudo, para citar algumas cifras, que nada pretendem seno exprimir uma ordem de grandeza ao designar o alvorecer do nosso universo, isto , o seu princpio no tempo, a cincia dispe de vrias vias, cada uma bastante independente da outra, mas no entanto convergentes, as quais brevemente indicamos:

1. O distanciamento das nebulosas espirais ou galxias.

26. O exame de numerosas nebulosas espirais, executado especialmente por Edwin E. Hubble no Mount Wilson Observatory, levou ao significativo resultado embora temperado de reservas de que esses longnquos sistemas de galxias tendem a distanciar-se uma da outra com tanta velocidade, que o intervalo entre duas dessas nebulosas espirais em cerca de 1300 milhes de anos se duplica. Se se olha, atrs, o tempo deste processo do "Expanding Universe", resulta que, de um a dez bilhes de anos passados, a matria de todas as nebulosas espirais achava-se comprimida num espao relativamente restrito quando os processos csmicos tiveram princpio.

2. A idade da crosta slida da terra.

27. Para calcular a idade das substncias originrias radioativas, datas muito aproximativas se deduzem da transmutao do istopo do urnio 238 num istopo de chumbo (RaG), do urnio 235 em actnio D (AcD) e do istopo de trio 232 em trio D (ThD). A massa de hlio que com isto se forma pode servir de controle. Por tal via, resultaria que a idade mdia dos minerais mais antigos , no mximo, de 5 bilhes de anos.

3. A idade dos meteoritos.

28. O mtodo precedente aplicado aos meteoritos, para lhes calcular a idade, deu aproximadamente a mesma cifra de 5 bilhes de anos. Resultado este que adquire especial importncia desde quando hoje em dia geralmente admitida a origem interestelar dos meteoritos.

4. A estabilidade dos sistemas de estrelas duplas e dos amontoados de estrelas.

29. As oscilaes da gravitao dentro destes sistemas, como o atrito das mars, restringem de novo a estabilidade deles para entre os termos de 5 at 10 bilhes de anos.

30. Se estas cifras podem causar estupor, todavia nem mesmo ao mais simples dos crentes trazem elas um conceito novo e diverso do ensinado pelas primeiras palavras do Gnese "In principio", ou seja o incio das coisas no tempo. A essas palavras elas do uma expresso concreta e quase matemtica, enquanto um conforto a mais brota delas para aqueles que compartilham com o Apstolo a estima para com essa Escritura, divinamente inspirada, a qual sempre til "ad docendum, ad arguendum, ad corripiendum, ad erudiendum" (2 Tim 3, 16).

E) O estado e a qualidade da matria originria

31. Com igual empenho e liberdade de indagao e de verificao, alm de questo sobre a idade do cosmo os doutos aplicaram o seu audaz engenho outra, j apontada, e certamente mais rdua, que concerne ao estado e qualidade da matria primitiva.

32. Segundo as teorias que se tomam por base, os relativos clculos diferem no pouco uns dos outros. Contudo, concordam os cientistas em admitir que, ao lado da massa, tambm a densidade, a presso e a temperatura devem ter atingido graus totalmente enormes, como se pode ver no recente trabalho de A. Unsld, diretor do Observatrio de Kiel (Kernphysik und Kosmologie, na Zeitschrift fr Astrophysik, 24. B., 1948, pp. 278-305). S em tais condies se pode compreender a formao dos ncleos pesados e a sua freqncia relativa no sistema peridico dos elementos.

33. Por outro lado, com razo a mente vida de verdade insiste em perguntar como foi que a matria chegou a um estado to inverossmil para a nossa comum experincia de hoje, e que foi que a precedeu. Em vo se esperaria uma resposta da cincia natural, a qual antes lealmente declara achar-se em face de um enigma insolvel. Bem verdade que demasiado se exigiria da cincia natural como tal; mas certo tambm que mais profundamente penetra no problema o esprito humano versado na meditao filosfica.

34. inegvel que uma mente iluminada e enriquecida pelos modernos conhecimentos cientficos, a qual pondere serenamente este problema, levada a romper o crculo de uma matria totalmente independente e autctona, ou porque incriada, ou porque criada por si, e a remontar a um Esprito criador. Com o mesmo olhar lmpido e crtico com que examina e julga os fatos, entrev ela e reconhece a a obra da onipotncia criadora, cuja virtude, agitada pelo potente "fiat" pronunciado h bilhes de anos pelo Esprito criador, se desenvolveu no universo, chamando existncia, com um gesto de amor generoso, a matria exuberante de energia. Parece, realmente, que a cincia hodierna, saltando de um pulo milhes de sculos, conseguiu fazer-se testemunha desse primordial "Fiat lux", quando do nada prorrompeu, com a matria, um mar de luz e de radiaes, enquanto as partculas dos elementos qumicos se cindiram e se reuniram em milhes de galxias.

35. Bem verdade que, da criao no tempo, os fatos at aqui averiguados no so argumento de prova absoluta, como so, ao contrrio, os atingidos pela metafsica e pela revelao, naquilo que concerne simples criao, e pela revelao se se trata de criao no tempo. Os fatos pertinentes s cincias naturais, a que Nos havemos referido, aguardam ainda maiores indagaes e confirmaes, e as teorias fundadas neles precisam de novos desenvolvimentos e provas, para oferecerem uma base segura a uma argumentao que, por si, est fora da esfera prpria das cincias naturais.

36. No obstante isto, digno de ateno que modernos cultores destas cincias considerem a idia da criao do universo inteiramente concilivel com a sua concepo cientfica, e que, antes, a ela so eles espontaneamente conduzidos pelas suas investigaes; ao passo que, ainda h poucos decnios, uma tal "hiptese" era repelida como absolutamente inconcilivel com o estado presente da cincia. Ainda em 1911 o clebre fsico Svante Arrehnius declarava que "a opinio de que alguma coisa possa nascer do nada est em contraste com o estado presente da cincia, segundo a qual a matria imutvel" (Die Vorstellung vom Weltgebude im Wandel der Zeiten, 1911, p. 362). De igual modo, de Plate a afirmao: "A matria existe. Do nada no nasce nada: por conseqncia, a matria eterna. No podemos admitir a criao da matria" (Ultramontane Weltanschauung und moderne Lebenskunde, 1907, p. 55).

37. Quo diverso e mais fiel espelho de imensas vises , ao contrrio, a linguagem de um moderno cientista de primeira ordem, Sir Edmund Whittaker, Acadmico Pontifcio, quando fala das supracitadas investigaes em torno da idade do mundo: "Estes diferentes clculos convergem para a concluso de ter havido uma poca, cerca de 109 ou 1010 anos atrs, antes da qual o cosmo, se existia, existia de forma totalmente diversa de qualquer coisa por ns conhecida: de modo que ela representa o ltimo limite da cincia. Podemos, talvez, sem impropriedade, referir-nos a ela como criao. Ela fornece um concordante fundo viso do mundo que sugerida pela evidncia geolgica, isto , de que todo organismo existente na terra teve um princpio no tempo. Se este resultado devesse ser confirmado por futuras investigaes, bem poderia vir a ser considerado como a mais importante descoberta da nossa poca, visto representar uma mudana fundamental na concepo cientfica do universo, semelhante efetuada, h quatro sculos, por obra de Coprnico" (Space and Spirit, 1946, pp. 118-119).

Concluso

38. Qual , pois, a importncia da cincia moderna relativamente ao argumento, em prova da existncia de Deus, deduzido da mutabilidade do cosmo? Por meio de indagaes exatas e particularizadas no macrocosmo e no microcosmo, ela alargou e aprofundou consideravelmente o fundamento emprico em que aquele argumento se baseia, e do qual se conclui para a existncia de um Ens a se, imutvel por sua natureza. Alm disto, ela seguiu o curso e a direo dos desenvolvimentos csmicos, e, assim como lhes entreviu o termo fatal, assim tambm apontou o incio deles num tempo de cerca de 5 bilhes de anos atrs, confirmando, com a positividade prpria das provas fsicas, a contingncia do universo e a fundada deduo de que por aquela poca o cosmo tenha sado das mos do Criador.

39. A criao no tempo, pois; e, por isto, um Criador; portanto Deus! esta a voz, conquanto no explcita nem completa, que Ns pedamos cincia, e que a presente gerao humana espera dela. voz que irrompe da madura e serena considerao de um s aspecto do universo, vale dizer da sua mutabilidade; mas j suficiente para que a humanidade inteira, pice e expresso racional do macrocosmo e do microcosmo, tomando conscincia do seu alto Criador, se sinta coisa d'Ele no espao e no tempo, e, caindo de joelhos diante da sua soberana Majestade, comece a lhe invocar o nome: "Rerum, Deus, tenax vigor, immotus in te permanens, lucis diurnae tempora successibus determinans" (ex Hymn. ad Nonam).

40. O conhecimento de Deus como nico Criador, conhecimento comum a muitos cientistas modernos, , de certo, o extremo limite a que pode chegar a razo natural; mas como bem sabeis no constitui a ltima fronteira da verdade. Do mesmo Criador, encontrado pela cincia no seu caminho, a filosofia, e muito mais a revelao, em harmnica colaborao, por serem todas trs instrumentos da verdade como raios do mesmo sol, contemplam a substncia, desvendam os contornos, reproduzem os traos. Sobretudo a revelao torna a presena dele quase imediata, vivificante, amorosa, qual a que o simples crente ou o cientista notam no ntimo do seu esprito, quando repetem sem vacilao as concisas palavras do antigo Smbolo dos Apstolos: "Credo in Deum, Patrem omnipotentem, Creatorem caeli et terrae!"

41. Hoje, depois de tantos sculos de civilizao, porque sculos de religio, no que se faa mister descobrir pela primeira vez a Deus, quando, antes, urge senti-lo como Pai, vener-lo como Legislador, tem-lo como Juiz; para salvao dos povos urge que eles adorem o Filho, amoroso Redentor dos homens, e se dobrem aos suaves impulsos do Esprito, fecundo Santificador das almas.

42. Esta persuaso, que da cincia tira os seus longnquos impulsos, coroada pela f, a qual, se sempre mais radicada na conscincia dos povos, poder deveras trazer um progresso fundamental ao curso da civilizao.

43. uma viso do todo, do presente como do futuro, da matria como do esprito, do tempo como da eternidade, que, iluminando as mentes, poupar aos homens de hoje uma longa noite de tempestade.

44. aquela f que neste momento Nos faz elevar, Aquele que ainda h pouco invocamos como Vigor, Immotus e Pater, a fervorosa splica por todos os seus filhos a Ns dados em custdia: "Largire lumen vespere, quo vita nusquam decidat" (1. c.): luz para a vida do tempo, luz para a vida da eternidade.

* * *

EDITORA VOZES Ltda., PETRPOLIS, R. J.

RIO DE JANEIRO SAO PAULO

IMPRIMATUR POR COMISSO ESPECIAL DO EXMO. E REVMO. SR. DOM MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PETRPOLIS. FREI LAURO OSTERMANN, O. F. M. PETRPOLIS, 1-II-1952.

Traduo de Lus Leal Ferreira


[1] A entropia (do grego ????????, entropa) uma grandeza termodinmica geralmente associada ao grau de desordem. Ela mede a parte da energia que no pode ser transformada em trabalho. uma funo de estado cujo valor cresce durante um processo natural em um sistema fechado. A entropia cresce quando o corpo recebe calor; diminui, quando escapa calor. Rodolfo Clausius (1822-1888) um fsico alemo, que estudou sobretudo as teorias relativas ao calor dos corpos. Reduziu as leis fundamentais do calor s leis mecnicas e introduziu no estudo das transformaes termodinmicas a nova funo da entropia. Publicou entre outros um livro intitulado: "Teoria mecnica do calor".

NDICE

Introduo

Natureza e fundamentos das provas da existncia de Deus

Duas essenciais notas caractersticas do cosmo

A) A mutabilidade do cosmo. Fato da mutabilidade

a) no macrocosmo

b) no microcosmo

na esfera eletrnica

e no ncleo

O eternamente imutvel

B) A direo das transformaes

a) no macrocosmo: a lei da entropia

b) no microcosmo

C) O universo e seus desenvolvimentos

no futuro

no passado

D) O princpio no tempo

1. O distanciamento das nebulosas espirais ou galxias

2. A idade da crosta slida da terra

3. A idade dos meteoritos

4. A estabilidade dos sistemas de estrelas duplas e dos amontoados de estrelas

E) O estado e a qualidade da matria originria

Concluso

 

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Convidamos voc a percorrer, com calma, nosso site, contemplando, em cada pgina, uma experincia de transcendncia, que o transporte para um mergulho espiritual... Leia mais

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O segundo semestre de 2019 conta com 27 acadmicos de filosofia, das dioceses de Palmas - Francisco Beltro, Guarapuava e Foz do Iguau.