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A Educao Infantil na Idade Mdia [1]

Ricardo da Costa
Prof. Adjunto de Hist. Medieval da UFES
Universidade Federal do Esprito Santo.
Home-page: www.ricardocosta.com

No Brasil, a Idade Mdia ainda citada por muitos nscios como um tempo de ignorncia e barbrie, um tempo vazio, um tempo em que a Igreja escondeu os conhecimentos que naufragaram com o fim do Imprio Romano para dominar o povo. Nesse movimento consciente e ideolgico em direo s trevas, o clero teve como aliado principal a nobreza feudal. Juntos, nobreza e clero governaram com coturnos sinistros e malvolos todo o ocidente medieval, que permaneceu assim envolto em uma escurido de mil anos, soterrado, amedrontado e preso a terra num trabalho servil humilhante [2] .

Quem ainda acredita piamente nesse amontoado de tolices ficar agradavelmente surpreso, espero, com o tema desse trabalho, que no poderia ser mais propcio. Minhas perguntas bsicas sero: existiu educao na Idade Mdia? E cincia? E as crianas? incrvel, mas h quase quarenta anos atrs o prprio Jacques Le Goff perguntou: teria havido crianas no Ocidente Medieval? [3] Seguindo a trilha deixada por Philippe Aris [4] , ele buscou a criana na arte e no a encontrou. verdade. Apressadamente concluiu ento que a criana foi um produto da cidade e da burguesia [5] e, portanto, o mundo rural no a conheceu. Pior: a conheceu sim, mas a desprezou, marginalizando-a [6] .

Deixo claro ento que minha perspectiva ser bastante diferente. Responderei sim a todas quelas perguntas, opondo-me a Jacques Le Goff e a Philippe Aris [7] . Para provar isso, dividi minha narrativa em duas partes: primeiro, busquei a condio infantil registrada pela Histria na Alta Idade Mdia (sculos V-X) para, a seguir, tratar da estruturao das cincias que Ramon Llull (1232-1316) apresentou a seu filho Domingos quando, em um ato de puro amor paterno, escreveu um livro para ele, a Doutrina para crianas [8] .

*

Falei h pouco de amor paterno. O amor uma forma muito profunda e especial de afeto, difcil de ser descrito, difcil de ser registrado a no ser nas emoes daqueles que o compartilham. Por isso, a Histria registra sempre o que se veste, onde se vive, o que se come, mas dificilmente narra como se ama, especialmente a intensidade e a forma do amor [9] . Os tipos de textos consultados pelos historiadores - as Crnicas, por exemplo - esto mais atentos aos acontecimentos importantes, aos personagens e poltica. Assim, ofereceram pouco espao para o mundo infantil, deixando muitas perguntas que no puderam ser respondidas satisfatoriamente. Por exemplo: como pais e filhos exprimiam seus carinhos, suas incompreenses? De que forma as crianas apreenderam o mundo existente? Como reagiram escola e aos estudos?

De qualquer maneira, o fato que, historicamente, o papel da criana sempre foi definido pelas expectativas dos adultos [10] , e esse anseio mudou bastante ao longo da histria, embora a famlia elementar e o amor tenham existido em todas as pocas [11] . Vejamos ento o caso medieval.

A primeira herana da Antigidade no nada boa: a vida da criana no mundo romano dependia totalmente do desejo do pai. O poder do pater familias era absoluto: um cidado no tinha um filho, o tomava. Caso recusasse a criana - e o fato era bastante comum - ela era enjeitada. Essa prtica era to recorrente que o direito romano se preocupou com o destino delas [12] . E o que acontecia maioria dos enjeitados? A morte [13] .

A segunda herana que a Idade Mdia herda da Antigidade, a cultura brbara, foi-nos passada especialmente por Tcito. Ele nos conta que a tradio germnica em relao s crianas era um pouco melhor que a romana. Os germanos no praticavam o infanticdio, as prprias mes amamentavam seus filhos e as crianas eram educadas sem distino de posio social [14] . O povo germnico era composto por um conjunto de lares, com dois poderes distintos: o matriarcal, exercido no seio da famlia, e o patriarcal, predominante na poltica e na organizao social [15] . No entanto, o destino das crianas naqueles cls, como na cultura romana, tambm dependia da vontade paterna (direito de adoo, de renegao, de compra e venda). A criana aceita ficava aos cuidados dos parentes paternos (agnatos) e o destino dos bastardos, rfos e abandonados era entregue aos parentes maternos, especialmente a tios e avs maternos [16] .

Dessas duas tradies culturais que se mesclaram e fizeram emergir a Idade Mdia, concluo que o status da criana naquelas sociedades antigas era praticamente nulo. Sua existncia dependia do poder do pai: se fosse menina ou nascesse com algum problema fsico, poderia ser rejeitada. Seu destino, caso sobrevivesse, era abastecer os prostbulos de Roma e o sistema escravista [17] . At o final da Antigidade as crianas pobres eram abandonadas ou vendidas; as ricas enjeitadas - por causa de disputas de herana - eram entregues prpria sorte [18] .

Nesse contexto histrico-cultural que se compreende a fora e o impacto do cristianismo, que rompeu com essas duas tradies [19] . O Cristo disse:

Em verdade vos digo que, se no vos converterdes e no vos tornardes como as crianas, de modo algum entrareis no Reino dos Cus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criana, esse o maior no Reino dos Cus. (Mt 18, 1-4).

A tradio crist abriu, portanto, uma nova perspectiva criana, uma mudana revolucionria [20] . No entanto, foi um processo bastante lento, um processo civilizacional levado a cabo pela Igreja. Primeiro, por fora das circunstncias. Por exemplo, dos sculos V ao VIII, na Normandia, o ndice de mortalidade infantil era muito elevado, 45%, e a expectativa de vida bem pequena, 30 anos [21] . primeira vista, esses dados arqueolgicos poderiam sugerir ao historiador um sentimento de descaso para com a criana: a regularidade da morte poderia criar nos espritos de ento uma apatia, um medo de se apegar a algo to frgil que poderia morrer primeira doena [22] .

Paradoxalmente, ao invs disso, a documentao nos mostra que havia um grande apego dos pais aos filhos, apesar da mortalidade infantil. Em sua Histria dos Francos, Gregrio de Tours nos conta o sentimento de tristeza e a lamentao de Fredegunda (concubina e depois esposa do rei dos francos Chilperico), quando da morte de crianas:

Essa epidemia que comeou no ms de agosto atacou em primeiro lugar a todos os jovens adolescentes e provocou sua morte. Ns perdemos algumas criancinhas encantadoras e que nos eram queridas, a quem ns havamos aquecido em nosso peito, carregado em nossos braos ou nutrido por nossa prpria mo, lhes administrando os alimentos com um cuidado delicado [...] O rei Chilperico tambm esteve gravemente doente. Quando entrou em convalescena, seu filho mais novo, que no era ainda renascido pela gua e pelo Esprito Santo, caiu enfermo. Assim que melhorou um pouco, seu irmo mais velho, Clodoberto, foi atingido pela mesma doena, e sua me Fredegunda, vendo-o em perigo de morte e se arrependendo tardiamente, disse ao rei: A misericrdia divina nos suporta h muito tempo, ns que fazemos o mal, porque sempre ela nos tem advertido atravs das febres e outras doenas, mas sem que nos corrijamos. Ns perdemos agora os nossos filhos, eis que as lgrimas dos pobres, as lamentaes das vivas e os suspiros dos rfos os matam e no nos resta esperana de deixar os bens para ningum. Ns entesouramos sem ter para quem deixar. Os tesouros ficaro privados de possuidor e carregados de rapina e maldies! Nossas adegas no abundam em vinho? Nossos celeiros no esto repletos de trigo? Nossos tesouros no esto abarrotados de ouro e de prata, de pedras preciosas, de colares e outras jias imperiais? Ns perdemos o que tnhamos de mais belo! Agora, por favor, venha! Queimemos todos os livros de imposies inquas e que nosso fisco se contente com o que era suficiente ao pai e rei Clotrio. (Gregrio de Tours, Historiae, V, 34) (os grifos so meus) [23]

Pois bem. Fredegunda, uma das mulheres mais cruis da Histria, apesar de filha de seu tempo brbaro, chora a morte de seus filhos e afirma que perdeu o que tinha de mais belo [24] . Mesmo nessa aristocracia merovngia rude e cruel no pior sentido da palavra [25] h espao para amor materno.

Por sua vez, fora do mundo secular, um espao social lentamente imps uma nova perspectiva educao infantil: o monacato [26] . Os monges criaram verdadeiros jardins de infncia nos mosteiros [27] , recebendo indistintamente todas as crianas entregues [28] , vestindo-as, alimentando-as e educando-as, num sistema integral de formao educacional [29] .

As comunidades monsticas clticas foram as que mais avanaram nesse novo modelo de educao, pois se opunham radicalmente s prticas pedaggicas vigentes das populaes brbaras, que defendiam o endurecimento do corao j na infncia [30] . Pelo contrrio, ao invs de brutalizar o corao das crianas para a guerra e a violncia, os monges o abriam para o amor e a serenidade [31] .

As crianas eram educadas por todos do mosteiro at a idade de quinze anos. A Regra de So Bento prescreve diligncia na disciplina: que as crianas no apanhem sem motivo, pois no faas a outrem o que no queres que te faam. [32] Toco aqui em um ponto importante e de grande discusso na Histria da Educao. O sistema medieval e monstico previa a aplicao de castigos. Na Bblia h passagens sobre os castigos com vara que devem ser aplicados aos filhos [33] ; na Regra de So Bento h vrias passagens (punio com jejuns e varas [34] , pancadas em crianas que no recitarem corretamente um salmo [35] ), e esse ponto foi muito destacado e criticado pela pedagogia moderna, que, no entanto, no levou em considerao as circunstncias histricas da poca [36] . Por exemplo, Manacorda interpreta os castigos do perodo antigo e medieval como puro sadismo pedaggico [37] , linha de interpretao que permaneceu ao lado da imagem do monge medieval como uma pessoa frustrada e desiludida amorosamente e que, por esse motivo, buscava a solido do mosteiro [38] .

Naturalmente isso se deve a um anacronismo e preconceito que no condizem com a postura de um historiador srio. Basta buscar os textos de poca que vemos a felicidade dos egressos dos mosteiros pelo fato de terem sido amparados, criados e educados. Darei apenas dois breves exemplos. Ao se recordar do mosteiro onde passou sua infncia, So Cesrio de Arles (c. 470-542) diz:

Essa ilha santa acolheu minha pequenez nos braos de seu afeto. Como uma me ilustre e sem igual e como uma ama-de-leite que dispensa a todos os bens, ela se esforou para me educar e me alimentar. [39]

Por sua vez, Walafried Strabo (806-849), ento jovem monge, nos conta em seu Dirio de um Estudante:

Eu era totalmente ignorante e fiquei muito maravilhado quando vi os grandes edifcios do convento (...) fiquei muito contente pelo grande nmero de companheiros de vida e de jogo, que me acolheram amigavelmente. Depois de alguns dias, senti-me mais vontade (...) quando o escolstico Grimaldo me confiou a um mestre, com o qual devia aprender a ler. Eu no estava sozinho com ele, mas havia muitos outros meninos da minha idade, de origem ilustre ou modesta, que, porm, estavam mais adiantados que eu. A bondosa ajuda do mestre e o orgulho, juntos, levaram-me a enfrentar com zelo as minhas tarefas, tanto que aps algumas semanas conseguia ler bastante corretamente (...) Depois recebi um livrinho em alemo, que me custou muito sacrifcio para ler mas, em troca, deu-me uma grande alegria... [40]

Esses so apenas dois de muitos exemplos que contam a felicidade e a alegria que os medievais sentiram com o fato de terem tido a sorte de serem acolhidos em um mosteiro. Assim, devemos sempre confrontar em retrospecto as regras com a vida cotidiana, o sistema institucional com o que as pessoas pensavam dele, para ento construirmos um juzo de valor mais adequado e menos sujeito a anacronismos.

Para completar o entendimento do sentido civilizacional dos mosteiros medievais, basta confrontarmos sua vida cotidiana - de educao e disciplina voltada para uma formao tica e moral das crianas - com o mundo exterior. Por exemplo, no perodo carolngio (sculos VIII a X), apesar do avano da implantao da famlia conjugal simples (modelo cristo) com uma mdia de 2 filhos por casal e um perodo de aleitamento de dois anos, a prtica do infanticdio continuava comum, a idade mdia dos casamentos era muito baixa (entre 14 e 15 anos de idade), a poligamia e a violncia sexual eram recorrentes, pelo menos na aristocracia [41] e ainda havia a questo da escravido de crianas [42] . Confronte voc, caro leitor, essa realidade com a vida de uma criana em um mosteiro.

Por sua vez, os bispos carolngios do sculo IX tentaram regulamentar o casamento cristo, redigindo uma srie de tratados (espelhos) [43] . Neles, o casamento era valorizado, a mulher reconhecida como pessoa com pleno direito familiar e em p de igualdade com o marido e a violncia sexual denunciada como crime grave e do mbito da justia pblica [44] . Para o nosso tema, o que interessa que as crianas tambm foram objeto de reflexo nesses espelhos: a maternidade foi considerada um valor (charitas) e o casal tinha a obrigao de aceitar e reconhecer os filhos [45] .

Assim, a ao da ordem clerical foi dupla: de um lado, os bispos lutaram contra a prtica do infanticdio, de outro, os monges revalorizaram a criana, que passou por um processo de educao direcionada, de cunho integral e totalmente igualitria por exemplo, as escolas monacais carolngias davam preferncia a crianas filhas de escravos e servos ao invs de filhos de homens livres, a ponto de Carlos Magno ser obrigado a pedir que os monges recebessem tambm para educar crianas filhas de homens livres [46] . Estes sculos da Alta Idade Mdia foram cruciais para a implantao do modelo de casamento cristo conhecido por todo o mundo ocidental, para a valorizao da mulher como parceira e igual do marido e para a idia de criana como ser prprio e com necessidades pedaggicas especficas [47] . Por fim, a sociedade era pensada como o conjunto de pessoas casadas (ordo conjugatorum), e a criana tinha um papel fundamental nessa estrutura, pois era o fim ltimo da unio.

*

Mulher, criana, minorias revalorizadas na Idade Mdia em relao Antigidade. Para completar esse quadro compreensivo, quero responder terceira pergunta feita no incio: qual era o conceito de educao que alicerava esse novo sistema pedaggico medieval? Essa uma resposta relativamente mais simples. Para os homens da poca, as palavras eram transparentes: havia um prazer muito grande em saborear o sentido etimolgico delas. Os intelectuais de ento diziam que o homem um ser que esquece suas experincias. Ele consegue resgat-las atravs da linguagem [48] . Assim, a expresso educao era entendida como estando associada sua raiz etimolgica latina: educe, fazer sair. Como o conhecimento j existia inato no indivduo, restava responder seguinte pergunta: de que modo o estudante era conduzido da ignorncia ao saber? [49] Como o aluno aprendia? Essa era a questo bsica dos educadores medievais. Preocupados com a forma da aquisio, os pedagogos de ento tiveram uma importante conscincia: cabia ao professor acender uma centelha no estudante e usar seu ofcio para formar e no asfixiar o esprito de seus alunos [50] . Muito moderna a educao medieval! [51]

*



[1] Este artigo dedicado ao meu amigo e colega de trabalho, Prof. Josemar Machado Oliveira (UFES), que certa vez presenteou-me com um belo livro (GIMPEL, Jean. A Revoluo Industrial da Idade Mdia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977) e aproveitou o ensejo para dizer-me que no existiu cincia na Idade Mdia!

[2] Um excelente livro que apresenta estes mitos e os destri completamente HEERS, Jacques. A Idade Mdia, uma impostura. Porto: Edies Asa, 1994.

[3] LE GOFF, Jacques. A civilizao do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. II, p. 44.

[4] ARIS, Philippe. Lenfant et la vie familiale sous lAncien Rgime, Paris, 1960.

[5] LE GOFF, Jacques. A civilizao do ocidente medieval, op. cit., p. 45.

[6] LE GOFF, Jacques. Os marginalizados no ocidente medieval. In: O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Lisboa: Edies 70, p. 169.

[7] Le Goff recupera o tema da criana como no-valor em sua biografia So Lus (Rio de Janeiro: Editora Record, 1999, p. 84), citando uma farta bibliografia como apoio sua tese mas somente uma fonte: Joo de Salisbury (No h a necessidade de recomendar muito a criana aos pais, porque ningum detesta sua carne - Policraticus, ed. C. Webb, p. 289-290), justamente uma passagem de um texto medieval onde se afirma o amor dos pais em relao aos filhos como algo comum!

[8] Utilizarei minha traduo feita a partir da edio de Gret Schib. RAMON LLULL. Doctrina pueril. Barcelona: Editorial Barcino, 1957.

[9] MARQUES, A H. de Oliveira. A Sociedade Medieval Portuguesa - aspectos de vida quotidiana. Lisboa: Livraria S da Costa, 1987, p. 105.

[10] BURKE, Peter. Histria e teoria social. So Paulo: Editora Unesp, 2002, 71-72.

[11] Interessante afirmao do antroplogo Jack Goody. Citado em GUICHARD, Pierre. A Europa Brbara. In: BURGUIRE, Andr, KLAPISCH-ZUBER, Christiane, SEGALEN, Martine e ZONABEND, Franoise (dir.). Histria da Famlia. Tempos Medievais: Ocidente, Oriente. Lisboa: Terramar, 1997, p. 18.

[12] ROUSSELL, Aline. A poltica dos corpos: entre procriao e continncia em Roma. In: DUBY, Georges e PERROT, Michelle (dir.): Histria das Mulheres no Ocidente. A Antigidade. Porto: Edies Afrontamento / So Paulo: Ebradil, s/d, p. 363.

[13] VEYNE, Paul. O Imprio Romano. In: ARIS, Philippe e DUBY, Georges (dir.). Histria da vida privada I. Do Imprio Romano ao ano mil. So Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 23-24.

[14] Limitar o nmero de filhos ou matar algum dos recm-nascidos crime; assim seus bons costumes podem mais que as boas leis em outras naes. De qualquer modo, eles crescem desnudos e sem asseio at chegarem a ter esses membros e corpos que admiramos. Os filhos so nutridos com o leite de suas mes, nunca de criadas ou amas-de-leite. No h distino entre o senhor e o escravo em nenhuma delicadeza de criana. Passam a vida entre os mesmos rebanhos e na mesma terra at que a idade e o valor distingam os nobres.? TCITO. Germania. In: Obras Completas. Madrid: M. Aguilar, Editor, 1946, p. 1026.

[15] GUICHARD, Pierre. A Europa Brbara, op. cit., p. 24.

[16] GUICHARD, Pierre. A Europa Brbara, op. cit., p. 28.

[17] DE CASSAGNE, Irene (PUC - Buenos Aires - Argentina). Valorizacin y educacin del Nio en la Edad Media, p. 20 (artigo consultado em www.uca.edu.ar)

[18] ROUSSELL, Aline. A poltica dos corpos: entre procriao e continncia em Roma, op. cit., p. 364.

[19] Um dos melhores ensaios a respeito de JOHNSON, Paul. Histria do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001, especialmente as pginas 11-148.

[20] DE CASSAGNE, Irene. Valorizacin y educacin del Nio en la Edad Media, op. cit., p. 20.

[21] ROUCHE, Michel. Alta Idade Mdia ocidental. In: ARIS, Philippe e DUBY, Georges (dir.). Histria da vida privada I. Do Imprio Romano ao ano mil. So Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 442-443.

[22] Essa idia - da indiferena como conseqncia do mau hbito - est muito bem expressa no conceito de banalizao do mal criado por Hannah Arendt em sua obra Origens do Totalitarismo (So Paulo: Companhia das Letras, 1990).

[23] Traduo de Edmar Checon de Freitas (doutorando em Histria Medieval pela UFF) a partir da verso francesa de R. Latouche (GRGOIRE DE TOURS. Histoire des Francs. Paris: Les Belles-Lettres, 1999, p. 295-296).

[24] Fredegunda foi concubina de Chilperico (neto de Clvis). Ele casou-se com Galasvinta, filha do rei visigodo Atanagildo, e sua irm, Brunilda, desposou Sigisberto, meio-irmo de Chilperico (Hist., IV, 27-28). Galasvinta acabou assassinada por ordem de Chilperico, ficando Fredegunda como sua primeira esposa (Hist., IV, 28); Gregrio insinua uma influncia de Fredegunda na morte da rival. Chilperico e Fredegunda figuram nas Historiae como um casal malvolo e sanguinrio. A passagem sobre a morte de seus filhos tem de ser lida nesse contexto. Contudo, importante destacar a forma escolhida pelo autor para sublinhar o castigo divino: a perda dos filhos e herdeiros. O tema da morte das crianas era caro a Gregrio. Por sua vez, no captulo V (22), narrada a morte de Sanso, outro filho pequeno de Chilperico e Fredegunda. Nascido durante um cerco sofrido por Chilperico - em guerra com o irmo Sigisberto - ele foi rejeitado pela me (que temia sua morte). O pai salvou-o e Fredegunda acabou batizando a criana, que morreu antes dos 5 anos. Mais tarde nasceu um outro filho do casal, Teuderico, ocasio na qual o rei libertou prisioneiros e aliviou impostos (Hist., VI, 23, 27). Novamente a desinteria vitimou a criana, com cerca de 1 ano de vida (Hist., VI, 34). O nico herdeiro de Chilperico, Clotrio, nasceu j no fim de sua vida (Hist., VI, 41; ele foi assassinado em 584). Tornou-se ele rei sob o nome de Clotrio II, tendo unificado o regnum Francorum. Chilperico teve outros filhos, de sua primeira mulher, Audovera. Teodeberto morreu no campo de batalha (Hist., IV, 50); Clvis e Meroveu (Hist., V, 18) foram mortos a mando do pai, o primeiro sob a instigao de Fredegunda. Na ocasio, ela suspeitara de malefcios contra seus filhos, recentemente mortos, nos quais Clvis estaria envolvido; ela tambm ordenou a tortura de algumas mulheres suspeitas (Hist., V, 39). ? FREITAS, Edmar Checon de.

[25] LE GOFF, Jacques. A civilizao do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. I, p. 58-60.

[26] JOHNSON, Paul. Histria do Cristianismo, op. cit., especialmente as pginas 167-188.

[27] DE CASSAGNE, Irene. Valorizacin y educacin del Nio en la Edad Media, op. cit., p. 21.

[28] Sabe-se que as escolas dos mosteiros acolhiam tanto os nobres rebentos da aristocracia quanto os pobres filhos dos servos. ? NUNES, Rui Afonso da Costa. Histria da Educao na Idade Mdia. So Paulo: EDUSP, 1979, p. 113.

[29] Mesmo Manacorda, um crtico do perodo, afirma que ...devemos reconhecer que, na pedagogia crist, ela (a maxima reverentia) um elemento novo de considerao da idade infantil ? MANACORDA, Mario Alighiero. Histria da Educao - da Antigidade aos nossos dias. So Paulo: Cortez, 1989, p. 118.

[30] Por exemplo, em sua Guerra Gtica, o historiador bizantino Procpio de Cesaria ( 562) nos conta que ...nem Teodorico permitira aos godos enviar os filhos escola de letras humanas, antes dizia a todos que, uma vez dominados pelo medo do chicote, nunca teriam ousado enfrentar com coragem o perigo da espada e da lana (...) Portanto, querida soberana - diziam a ela - manda para aquele lugar esses pedagogos e pe tu mesma ao lado de Atalarico alguns coetneos: estes, crescendo junto com ele, o impeliro para a coragem e a valentia segundo o uso dos brbaros (I, 2) ? Citado em MANACORDA, Mario Alighiero. Histria da Educao - da Antigidade aos nossos dias, op. cit., p. 135-136.

[31] ROUCHE, Michel. Alta Idade Mdia ocidental, op. cit., p. 446.

[32] Regra de So Bento (depois de 529 d.C.), cap. 70. Documento consultado na INTERNET: http://www.ricardocosta.com/bento.htm

[33] O que retm a vara aborrece a seu filho, mas o que ama, cedo o disciplina. (Prov. 13:24); No retires da criana a disciplina, pois, se a fustigares com a vara no morrers. Tu a fustigars com a vara e livrars a sua alma do inferno. (Prov. 23.13-14)

[34] Os meninos e adolescentes ou os que no podem compreender que espcie de pena , na verdade, a excomunho, quando cometem alguma falta, sejam afligidos com muitos jejuns ou castigados com speras varas, para que se curem. ? Regra de So Bento, cap. 30 (http://www.ricardocosta.com/bento.htm)

[35] As crianas por tal falta recebam pancadas ? Regra de So Bento, cap. 45.

[36] Mesmo nesse aspecto, o das surras, h de se relativizar: um dos maiores sucessos editoriais no Brasil, o livro Meu Beb, Meu Tesouro, de DELAMARE, defendia que as crianas deveriam levar uma surra todos os dias!

[37] MANACORDA, Mario Alighiero. Histria da Educao - da Antigidade aos nossos dias, op. cit., p. 119. Naturalmente Manacorda se refere ao sadismo por parte de quem aplicava o castigo, isto , os monges. Falo isso porque, certa vez, ao ler parte desse texto em sala de aula na UFES, uma aluna ficou em dvida se o sadismo era por parte de quem batia ou de quem apanhava!

[38] Pode haver, com efeito, alguns casos particulares desses tipos. Mas os monges so pessoas que fizeram e fazem livremente a sua opo pela vida silenciosa e penitente, por amor a Deus que transborda na caridade para com o prximo. ? NUNES, Rui Afonso da Costa. Histria da Educao na Idade Mdia, op. cit., p. 91-92.

[39] San Cesreo de Arles, Sermo ad monacho, CCXXXVI, 1-2, Morin, t. II, p. 894. Citado em DE CASSAGNE, Irene. Valorizacin y educacin del Nio en la Edad Media, op. cit., p. 22.

[40] Citado em MANACORDA, Mario Alighiero. Histria da Educao - da Antigidade aos nossos dias, op. cit., p. 135. Esse belo texto medieval tambm analisado em NUNES, Rui Afonso da Costa. Histria da Educao na Idade Mdia, op. cit., p. 157-159 (SHNGEN, C. J. De medii aevi puerorum institutione in occidente. Diss. Amsterdam 1900).

[41] TOUBERT, Pierre. O perodo carolngio (sculos VII a X). In: BURGUIRE, Andr, KLAPISCH-ZUBER, Christiane, SEGALEN, Martine e ZONABEND, Franoise (dir.). Histria da Famlia. Tempos Medievais: Ocidente, Oriente. Lisboa: Terramar, 1997, p. 69-84.

[42] O comrcio de escravos fora rigorosamente interdito em 779 e 781 (...) mas continuou, no obstante (...) Agobardo mostra-nos que este comrcio vinha de longe (...) conta-nos que no comeo do sculo IX chegara a Lio um homem, fugido de Crdova, onde tinha sido vendido como escravo por um judeu de Lio. E afirma a este propsito que lhe falaram de crianas roubadas ou compradas por judeus para serem vendidas. ? PIRENNE, Henri. Maom e Carlos Magno. Lisboa: Publicaes Dom Quixote, s/d., p. 228.

[43] Christopher Brooke analisa a histria do casamento (O casamento na Idade Mdia. Lisboa: Publicaes Europa-Amrica, s/d) sem, contudo, tratar da tica conjugal dos espelhos carolngios, preferindo fazer seu recorte nos sculos feudais (XI-XII).

[44] O modelo conjugal que a elite religiosa procura ento impor como regulador da violncia social implica, alm disso, um reconhecimento da mulher enquanto pessoa, enquanto consors de pleno direito na sociedade familiar (...) A perfeita igualdade entre os cnjuges um dos temas mais constantes da literatura matrimonial, em plena concordncia com a legislao que, desde meados do sculo VIII, no cessa de proclamar que a lei do matrimnio uma s, tanto para o homem como para a mulher. ? TOUBERT, Pierre. O perodo carolngio (sculos VII a X), op. cit., p. 87. Tambm desnecessrio dizer que a violncia sexual da poca era contra a mulher.

[45] Esta temtica dever ser relacionada com a luta que nessa poca se travava contra as prticas contraceptivas, o aborto provocado e o infanticdio. Comporta igualmente um dever de educao crist que tem como resultado, em Teodulfo de Orlees, uma definio do officium paterno e materno. ? TOUBERT, Pierre. O perodo carolngio (sculos VII a X), op. cit., p. 87.

[46] Que ajuntem e renam ao redor de si no s filhos de condio servil, mas tambm filhos de homens livres. ? Da Admonitio generalis, cap. 72. In: BETTENSON, H. Documentos da Igreja crist. So Paulo: ASTE, 2001, p. 168.

[47] Todos esses avanos jurdicos em relao mulher e criana foram acompanhados, paradoxalmente, por um discurso clerical anti-feminino! Para esse tema, ver especialmente DUBY, Georges. Eva e os padres. Damas do sculo XII. So Paulo: Companhia das Letras, 2002. De qualquer modo, fato que a mulher moderna ocidental hoje desfruta de uma posio social melhor que no Oriente, especialmente nos pases de cultura islmica.

[48] O gosto que os autores medievais tinham pela etimologia derivava de uma atitude com relao linguagem bastante diferente da que geralmente temos hoje. Na Idade Mdia, ansiava-se por saborear a transparncia de cada palavra; para ns, pelo contrrio, a linguagem opaca e costuma ser considerada como mera conveno (e nem reparamos, por exemplo, em que coleira, colar, colarinho, torcicolo e tiracolo se relacionam com colo, pescoo). ? LAUAND, Luiz Jean. Cultura e Educao na Idade Mdia. So Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 106.

[49] Esse um ponto no qual a pedagogia medieval difere enormemente da moderna, pois quase senso comum hoje afirmar que as crianas so receptculos vazios (tabula rasa) e o educador enche-as de contedo.

[50] PRICE, B. B. Introduo ao Pensamento Medieval. Lisboa: Edies Asa, 1996, p. 88.

[51] Este trabalho a primeira parte da palestra intitulada "Reordenando o conhecimento: a educao na Idade Mdia e o conceito de cincia expresso na obra Doutrina para Crianas (c. 1274-1276) de Ramon Llull" proferida na II Jornada de Estudos Antigos e Medievais: Transformao social e Educao - 10 e 11 de Outubro de 2002 - Universidade Estadual de Maring (UEM), evento coordenado pela Prof Dr Terezinha Oliveira.

 

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