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Semelhanças e Distanciamentos entre os Deuses Gregos e os Santos Católicos Romanos

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Semelhanças e Distanciamentos entre

os Deuses Gregos e os Santos Católicos Romanos

 

 

Por

 

Sergio Paulo de Melo Feitosa

 

 

 

 

 

“As religiões das antigas Grécia e Roma encontram-se extintas. As chamadas divindades do Olimpo não encontram sequer um adorador dentre os mortais, e já não pertencem mais à área da Teologia, mas à Literatura e ao bom gosto e ai permanecerão, pois se encontram tão profundamente conectadas ao que há de melhor na poesia e na arte antiga e moderna, que jamais cairão no esquecimento”.

 

Thomas Bullfinch

O Livro de Ouro da Mitologia

 

 

 

 

 

 

 

Há alguma semelhança ou semelhanças dos santos católicos com as divindades greco-latinas, que foram cultuadas séculos antes do advento do cristianismo? Será possível ver relações de semelhanças caso existam, entre estas divindades e os fiéis cristãos denominados santos, presentes no ritual católico? E se há, quais poderiam ser de fato observadas e referidas? Se forem encontradas, será possível demarcar elementos de diferenças significativas entre os panteões e os santos que são cultuados secularmente na igreja católica romana? Como podem ser vistas as semelhanças, do momento em que ocorram?

Será que o reconhecido zelo com que o cristianismo tradicional se inseriu, passaria por uma plasticidade que permitiria um jogo de relações, entre algumas tradições religiosas que conviviam com os fiéis cristãos ainda nos primeiros séculos?

 

Estas questões além de serem propostas, serão analisadas dentro do espaço deste texto, sabendo que muito ficará de fora ou simplesmente não observado, pois se sabe da complexidade do tema e consequentemente dos limites das pesquisas e dos pesquisadores. O que se propõe aqui é apenas um viés, dos muitos que podem ser estudados.

 

Se existe um consenso diante da palavra “Deus” e de seu significado, o mesmo não se pode dizer diante da expressão “santos”. O Credo de Nicéia, afirma, “cremos num só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis” (BETTENSON, 1983, p 550). O Credo Niceno registra, “cremos num só Deus, criador do céu e da terra, de todas as coisas invisíveis’ (ob.cit. p.56). De fato, segundo Davis, “(...) a palavra Deus designa fundamentalmente o Espírito poderoso que é adorado, e cujo auxílio invocamos”. (DAVIS, 1977, p.153). Esta é uma afirmação que certamente poderia ser acrescido com alguns adjetivos à divindade, mas que dificilmente dentro do cristianismo será contestada em seu aspecto geral.

 

Diante do termo “santo”, a situação é outra.

 

Na verdade, percebe-se que as vertentes cristãs sejam as do catolicismo romano e do protestantismo, por exemplo, tem visões bem diferenciadas, não necessariamente complementares dele. É necessário observar ainda que a noção de santidade, que referenda a canonização no catolicismo romano, possui pontos distintos, e apesar da finalidade última significar o reconhecimento da fé e de uma devoção decorrente, o processo de como se analisa a condição de um membro da comunidade cristã católica para a canonização, difere também em períodos históricos.

 

Ainda de acordo com Davis, a palavra santo, era empregada para,

 

“designar pessoas ou coisas destinadas ao uso sagrado, bem como dias reservados ao serviço religioso, Ex.20:8; 30.31; Lv. 21:7; Nm. 5:17; Ne. 8:9; Zc. 14:21. (...) em um sentido mais lato, Deus é santo porque é separado de todos os outros entes pelas suas infinitas perfeições, como sejam, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade (...)”. (op. cit. 540).

 

 

Para o escritor católico Machado, o processo de santidade requer,

 

 “empenho, esforço, trabalho dos que a ela aspiram. Dir-se-ia que caminha lentamente e, conforme os autores da espiritualidade, tem suas fases. De acordo com Santo Tomás de Aquino, os autores espirituais distinguem nela três fases: a) dos insipientes: caritas incipietum, daqueles que cuidam de evitar faltas graves e se encontram na vida purgativa; dos progredientes, caritas proficientium, dos que crescem e se desenvolvem na caridade e se encontram na via iluminativa; e finalmente, c) a caridade dos perfeitos: caritas perfectorum, dos que se acham na via unitiva”.(MACHADO, 1995, p.15).

 

 

São Cirilo de Alexandria cita ainda que “(...) muitos já nasceram santos e imaculados de todo pecado: por exemplo, Jeremias, santificado desde o ventre materno, e João, ainda não dando à luz, saltando, jubiloso ao ouvir a voz de Maria, Mãe de Deus”. (MACHADO apud CIRILO, 1995, p. 97).  No decorrer dos séculos e com eles, em alguns cismas que a igreja cristã enfrentou, a figura do santo, foi ficando designativa da vertente da igreja que assumiu o caráter “universal” ou católico do termo e será esta visão que será abordada nesta pesquisa.

 

Necessário ainda esclarecer que,

 

“o termo católico quer dizer universal e foi uma federação ou associação de igrejas que eram ligadas por um acordo formal com três aspectos. No I século, as igrejas tinham uma unidade espiritual, através do amor, unidade na fé em Cristo. No II século, além da unidade espiritual havia também uma unidade externa. As igrejas que faziam parte da associação chamada católica eram unidas sobre uma só forma de governo, isto é, bispos, presbíteros, diáconos; segundo pela adoção de um só credo, substancialmente o Credo dos Apóstolos; e, terceiro, por todos reconhecerem uma só coleção de livros do Novo Testamento”. (NICHOLS, 1981, p.36).

 

 

Finalmente se algumas denominações cristãs podem ser estudadas sem a figura da canonicidade destes homens e mulheres, chamados santos, o mesmo não se pode dizer do catolicismo romano. Esquecer a presença ou a importância deles é esquecer parte fundamental para compreender sua história passada e presente; eles começam a receber um tipo de deferência que os colocava num patamar a ser seguido, sendo testemunhas, “mártires”, fiéis perseguidos e sacrificados, marcando a história da igreja.

Tal concepção marca substancialmente a teologia cristã nascente, bem como se constituirá num dos pontos de diferença quando não de discórdia entre as denominações cristãs católicas e protestantes.

 

 

 

  1. Diferenças Somadas

 

 

“Por volta de 178, o filósofo pagão Celso acusou os cristãos de adotarem uma visão tacanha e provinciana de Deus. Abominava sua presunção de terem recebido uma revelação especial: Deus era para todos os seres humanos, mas os cristãos se amontoavam num sórdido grupinho, afirmando: ‘Deus abandonou o mundo inteiro e os movimentos dos céus e a terra imensa para dar atenção apenas à nós’”.

 

Karem Armstrong

Uma História de Deus

 

 

 

Quando o cristianismo surge e recua-se ao momento do período de início do Império Romano, sua chegada não denotava para os conquistadores latinos, nada mais do que um grupo estranho e confuso de perturbadores da ordem pública, como recorda o escritor Wilson, citando Suetônio: “um decreto de Cláudio baniu os judeus de Roma porque eles estavam “continuamente provocando tumultos por instigação de Chrestus”. (WILSON apud SUETÔNIO, 2007, p.63); ainda que pairem dúvidas quanto à autenticidade da citação do escritor romano, outros relatos não deixam dúvidas que o cristianismo foi um problema para o Império.

O fato é que o cristianismo consolidou-se. Apesar de toda prevenção dos administradores imperiais, nos períodos de perseguição, a crença cristã, solapou pontos da sociedade latina de forma irremediável e o confronto que se seguiu entre as religiões foi cruento. Alguns imperadores sentindo que sua posição poderia ser afrontada pela recusa do cristão em render culto, promoveram perseguições sistemáticas e estas foram inicialmente a grande fonte para o surgimento dos santos mártires. Como recorda Atienza, “o começo do culto oficial à figura do imperador, estabelecido tempos antes pelo próprio Augusto, mas formalizado com Domiciano”. (ATIENZA, 1995, p.29).

 

Os latinos tinham seus deuses, seus cultos, seus rituais, templos e sacerdotes. Seus deuses não eram meras cópias dos deuses gregos, como em um período imaginou-se, mas as semelhanças com estes eram grandes e podia-se recorrer às suas memórias, extraídas dos mitos gregos, como comenta Virgilio, na Eneida:

 

“Lá durante três vezes cem anos, reinará a raça de Heitor, até que Ilia, rainha e sacerdotisa, fecundada por Marte, der luz os gêmeos. Depois Rômulo, orgulhoso da fulva pele de loba, sua ama, receberá a nação e construirá os muros de Marte, e dará seu nome aos romanos”. (VIRGILIO, 2003, p.17).

 

 

Os seus principais deuses eram em número de 12, como no caso do panteão grego e os atributos muito semelhantes, bem como a ordem de sua importância. Júpiter, seu deus máximo tinha o correspondente grego, Zeus; Juno, a deusa Hera, Marte, Ares; Vulcano, Hefestos; Diana, Ártemis, Vênus, Afrodite, Mercúrio, Hermes; Netuno, o deus grego Posídon; o deus do mundo inferior Plutão, era o Hades; Deméter, Ceres;a deusa Vesta, Héstia.

Mas tal assimilação não se faz apenas por uma questão de semelhanças.  Segundo a autora anteriormente citada, “divindades como Ísis e Sêmele eram adoradas junto com os deuses tradicionais de Roma, guardiães do Estado”. (ob.cit. p.128). Ou seja, adorar outras divindades era uma moeda comum e fácil no mundo latino, e o seu número era bastante considerável.

Dada o monumental tamanho do Império Romano, as crenças religiosas de outros povos, notadamente as gregas, também era absorvidas e como comenta Armstrong, “os antigos rituais proporcionavam um senso de identidade, celebravam tradições locais e pareciam constituir uma garantia de que tudo continuaria como estava”. (ARMSTRONG, 2008, p.129).

Durante um período de trezentos anos, os fiéis da nova crença, convivem com esta religião latina. Excluindo os judeus, que estão na seita cristã, todos eram oriundos das crenças pagãs, mas a conversão promoveu cismas. O embate que se imagina ter acontecido, também deve ter sido dramático, não apenas como uma afronta ao poder imperial, mas também porque agora, os cultos pagãos, após a conversão, eram vistos como sinônimos do mal, como atestam alguns relatos:

 

“que não haja dia, meus queridos irmãos, em que não meditemos a respeito da história dos mártires. Este mártir não se acovardou diante do torturador, aquele outro foi mais rápido que o lento executor em seu caminho para a morte, outro, ainda, engoliu gananciosamente as chamas ao seu redor, outro foi cortado em pedaços, mas permaneceu inteiro, outro disse que estava feliz, pois seria ele o crucificado. Outro, nas mãos do carrasco, para acelerar a execução e não se atrasar mais, ordenou aos rios que invertessem seu curso e voltassem para a fonte. Aquela garota, ansiosa pela morte, incitou a fúria do leão contra ela mesma. Aquela virgem expôs seu pescoço para a espada, em outro ornamento além das jóias da eternidade”. (HILLGART apud VITRICIO DE ROUEN, 2004, p.41,42).

 

 

Entre os pagãos, era de pensamento que os deuses e heróis, em um período remoto, haviam participado intensamente das relações mais humanas, onde se tornavam patronos de cidades, bem como, de atividades profissionais e de atributos e âmbitos humanos, como o sonho, a guerra e o comércio. Os deuses podiam ser encontrados em todos os compartimentos da vida; estavam em tudo, mas não necessariamente como presença benéfica, e a exemplo dos homens, sucumbiam à violência sendo inúmeras vezes, nefastos para a sociedade.

No imaginário religioso, participavam do mundo humano, inseridos na vida ordinária, tornando-se protetores maiores e seus condutores, realizando em suas ações, o equilíbrio necessário, ou apenas interagindo com os homens, num convívio e certa forma vista como natural, como se pode observar em inúmeros exemplos e como comenta Souza, “a intervenção, benéfica ou maléfica, dos deuses está no âmago da psicologia dos heróis de Homero e comanda suas ações”. (SOUZA, 1996, p.8).

Se o deus estava em todo lugar da atividade humana e sendo seu inspirador, não estava presente obviamente apenas nas situações boas, mas em todas; a moral do deus, era uma expressão maior da moral humana e esta, se mostrou complexa e eivada de contradições.

O cristianismo que se alicerça no decorrer dos séculos de perseguição, possui no entanto um contraponto interessante: o deus, deus pagão, tinha atitudes reprováveis, o homem, homem cristão, tinha atitudes memoráveis em busca da perfeição e da aprovação de Deus. E os santos que surgem no culto da igreja perseguida, são exemplos de uma firmeza que poderia se dizer inabalável, tanto que acabaram sendo imolados das formas mais cruéis. Este fiel, chamado mártir, recordava o martírio de Jesus Cristo.

Os santos, não apenas os mártires, consequentemente, possuíam uma imagem moral que deus greco-latino algum alcançou. O próprio Zeus ou Júpiter, o deus grego e o deus latino, não raro, apelavam para a trapaça, para a mentira ou para a força bruta, no alcance de seus intentos, como recorda a Ilíada:

 

“Vós todos, deuses do Olimpo, jamais poderíeis demover-me, tal o vigor de meus braços invictos, e tal minha força. Ambas teríeis, primeiro, sentindo tremer-vos os membros, antes de haverdes a guerra enxergado e seus duros trabalhos”. (HOMERO,S.D., p.150).

  

E finalmente pode-se dizer que o estado final do santo, junto com Cristo, segunda a promessa, transformava o mundo hostil e persecutório, num estágio ainda que difícil, necessário para a bem-aventurança de estar com Deus, coisa que exemplarmente os deuses gregos nunca aventaram; para o homem grego, o mundo pós-morte se não era de total indefinição, ao menos num certo momento histórico era de um significativo pessimismo, como recorda um conhecido diálogo entre Aquiles e Odisseu:

 

“Ilustre Ulisses, não tentes consolar-me a respeito da morte; preferiria trabalhar, como servo de gleba, às ordens de outrem, de um homem sem patrimônio e de parcos recursos, do que reinar sobre os mortos que nada são”. (HOMERO, 2003, p.153).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. Semelhanças Multiplicadas: Santos e Deuses

 

 

 

“(...) muitas estruturas arcaicas da consciência humana se mantêm sob a forma de mitos aos quais ninguém concebe, ao menos conscientemente, o valor de realidades que tiveram uma vigência remota”.

Julio Atienza

Os Santos Pagãos

 

 

 

 

No decorrer dos séculos, o número dos canonizados, pela Santa Sé Romana, até a atualidade, ultrapassa algumas centenas, mas o culto popular, faz o número chegar segundo Woodward, “cerca de 10.000 santos cristãos, cujo culto já foi identificado por historiadores da igreja (...)” (WOODWARD, 1992, p.17). E segundo o mesmo autor, “a obra mais completa sobre o assunto, o Bibliotecha sanctorum, tinha 18 volumes em 1989 e arrolava mais de 1.000 santos (...)”. (op. cit. p.51). Ainda que o processo de canonização passe por mudanças que sejam significativas de uma época, é perceptível que é uma tendência com fôlego para perdurar por muito tempo.

O modelo de santidade que se consolida nos primeiros séculos, é a do santo mártir, e normalmente os mais conhecidos, admirados e cultuados vem, deste período; é o período da perseguição ou da expansão do cristianismo além da esfera de Jerusalém. A perseguição apesar de não ter sido nem uniforme, nem constante, alimentou a igreja nascente com um bom número de exemplos, que fariam eco pelos séculos.

O cristianismo, reitera na história, um dado também significativo neste estado de visão do sagrado: a posição de estar cultuando o deus verdadeiro, e os cristãos se tornaram conhecidos dentro do império romano, como não tendo muita vocação em ceder aos seus posicionamentos, quando o quesito era abdicar de seu culto e de sua fé.  Tal culto, apesar de simples, era visto como perigoso. Afirma Plínio, o Jovem, citado por Bettenson, ao imperador Trajano, ao inquirir cristãos presos: “foram unânimes em reconhecer que sua culpa se reduzia apenas à isto: em determinados dias costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos à Cristo, como a um deus”. (ob. cit. p.29). Os perseguidos, que se mostravam contumazes em suas praticas, são quase imediatamente julgados e sofrem a execução.

A multidão cristã que se sentia desassistida por uma administração que teoricamente deveria zelar por sua integridade, tem o mártir como um exemplo máximo de dedicação, e amparador diante da morte. Ao reconhecer a ação do santo martirizado, o último elo seria exatamente o exemplo de Jesus, o mártir maior e ainda recorda Machado que, “o martírio na igreja primitiva era a expressão maior de santidade. Ser mártir era o mesmo que ser santo” (ob. cit., p.131).

 

Segundo Solimeo, estes são alguns dos santos mártires relembrados por dias diversos do calendário cristão católico: no mês de janeiro, São Pedro Tomás, São Marcelo I,  Sta. Prisca, São Sebastião; em fevereiro, São Brás, São João de Brito, Sta. Eulália, Sto. Onésimo. São Policarpo; em março, São Marco e Sto. Astério, Sta. Perpétua, Sta. Felicidade, Sto. Elogio, São Nicéforo, São Julião de Anabarzus, São Benjamin. Em abril, São Terêncio e 39 companheiros, São Vítor de Braga, Sto. Hermenegildo, São Crescêncio, Sto. Aniceto, Sto. Ardalião, Sto. Apolônio. São Sotero de Fidelis, São Jorge, São Marcos Evangelista; em maio, São Filipe e São Tiago, São Floriano, Sta. Flávia Domitila, São Vítor, São João Nepomuceno, São Matias; em junho, São Justino, São Carlos Lwanga e 21 companheiros, São Pedro e São Marcelino, São Bonifácio, Sta. Olívia, São Barnabé, São Vito, Sta. Julita e São Ciro; São Pelágio, Sto. Irineu; em julho, São Tomé, Sta. Maria Goretti, São Giuliano, Sta. Felicidade e sete filhos, São Frederico, Beato Inácio de Azevedo e 39 comanheiros, São Tiago Maior, São Pantaleão, Sta. Marta; em agosto, Sta. Afra, São Juliano Mariano e oito companheiros, São Lourenço, São Maximiliano Kolbe, Sto. Euplusio, São Bartolomeu, São Filipe e Sto. Adauto; em setembro, São João Gabriel, São Cornélio, São Cipriano, São Januário, São Sósio, São Próculo, São Festo, São Desidério, Sto. Eutiquio, Sto. Acúrcio, Sto. Agapeto, São Maurício e companheiros; São Lino, São Firmino, São Cosme e São Damião, São Venceslau; em outubro, São João Ogilvie, Sto. Evaristo, São Simão e São Judas Tadeu; em novembro, 5 santos escultores, São Teodoro, São Josafá Kuncewycz, São Serapião, São Romão, São Roque Gonzalez, Sto. Afonso Rodrigues Del Castillo, São Clemente, Sta. Cecília, Sto. André Dung  Lac e companheiros, Sta. Catarina de Alexandria, São Saturnino, Sto. André. Em dezembro, Sta. Bárbara, Sta. Leocádia, São Melquiades, Sta. Luzia, Sto. Estevão e São Tomás Becket (SOLIMEO, 1999).  

Esta é apenas uma das relações e possui 102 nomes e pode-se dizer que a maioria situada nos dois primeiros séculos depois de Cristo. Os números são questionados e Atienza comenta que o próprio Orígenes,

 

“filho de mártir e ele próprio perseguido e preso por sua fé cristã, que quase lhe custou a vida, disse em seu manuscrito intitulado  Exortação ao Martírio, que o número de mártires (testemunhas, em seu sentido literal) “foi pequeno e facilmente recontável”.(ATIENZA, 1995, p.31).

 

Mas com o fim da perseguição, sua constituição foi sofrendo alterações, mas ainda sim, a condição era o zelo para com a fé e um modelo humano a ser seguido. Passam a receber uma veneração, pontuados e enriquecido por ações miraculosas e presentes nas orações e ritos, sendo também vistos como intercessores ou mediadores para as súplicas e carências, com vistas à que tais cheguem a Deus. Rapidamente o culto caiu no imaginário da prática cristã de uma forma sólida. Os relatos posteriores ao cristianismo neo-testamentário, mostram-se abundantes de relatos, que são engrossados por ações do mártir, agora santo, em algo que também o marca: o milagre.

Seus nomes passam a serem usados como forma de reconhecimento aos filhos nascidos, bem como protetores de cidades ou lugares, patronos de profissões e também são invocados para a cura de enfermidades. Normalmente o dia tradicional do martírio ou de um relato de aparição, provoca que a data seja incorporada ao calendário usual.

 

Recorda o pesquisador Solimeo que há os santos patronos:

 

“São Francisco de Salles (padroeiro da juventude católica), São Pedro Damião (protetor contra as insônias e enxaquecas), São João de Deus (padroeiro dos enfermeiros e hospitais), São Domingos Sávio e São Luis Gonzaga (padroeiros da juventude católica), Santa Zita (padroeira das empregadas domésticas), São José (padroeiro dos operários), Santo Pascoal Bailão (padroeiro dos congressos eucarísticos), Santo Ivo (padroeiro dos advogados e juízes), Santa Rita de Cássia (padroeira das que sofrem com os maridos e das causas perdidas), São Raimundo Nonato (padroeiro das parturientes e parteiras), São Cosme e São Damião (protetores contra as doenças do corpo e da alma)”. (ob. cit., 1999).

 

 

Atienza acrescenta, “São Vito, protetor contra as convulsões, São Erasmo, cura as cólicas, sendo depois mudado para São Telmo, protetor dos navios e marinheiros, São Brás, protetor da laringe, amígdalas e combate à tosse”. (ob. cit., p.102). Enfim, o culto aos santos passa por um complexo processo de capilaridade social. Recebem orações, votos, testemunhos diários através de milhares de fiéis, e ainda se fazem presentes na forma de templos que lhes são dedicados, desde o tempo mais recuado.inclusive muitas igrejas que lhes são dedicadas, construídas sobre ruínas de templos pagãos. Como recorda Costa,

 

“o sujeito religioso, ou seja, aquele que exercita a religião como possibilidade na sua existência empresta à prática um sentido que concretamente, permite aos “sentidos específicos (das) diferentes esferas de ação humana o possam estar presentes e em contato” (COSTA, 1985, p.112).

 

 

Sua moral era considerada inatacável e em inúmeros casos, foram imolados por não acataram ordens para dissimular ou negar sua fé, alicerçada na noção do Deus todo-poderoso e justo, como recorda Bettenson, no processo que culminou com a morte de Policarpo (155 D.C.), “o procônsul instou: (...), insulta a Cristo. Policarpo respondeu: oitenta e seis anos que sirvo a Cristo. Cristo nunca me fez mal. Como blasfemaria contra meu Rei e Salvador?”. (ob. cit. p. 38).

  

Mas as diferenças entre deuses e santos começam a diminuir.

 

No decorrer dos poucos séculos, passa o cristianismo a constituir lentamente um verdadeiro panteão a exemplo das religiões pagãs, onde há uma nítida semelhança entre os antigos deuses; o número de santificados por decisão papal, começa a aumentar de forma substancial; respondem orações e agem miraculosamente, não sendo raro, aparições, inclusive contemporâneas, como se davam com os deuses greco-latinos, como se pode observar em inúmeros exemplos, exemplarmente a Ilíada e a Odisséia:

 

“Estrangeiro, mostra-te agora de aspecto diferente de há pouco; tens outra indumentária, diferente é a cor de tua pele. És sem duvida, um dos deuses moradores do vasto céu” (HOMERO, 2003, p.211).

 

Assombrado diante da transformação do pai, o qual não conhecia, mas apenas sabia das gestas, assim reage o jovem Telêmaco, diante da transfiguração de Ulisses, promovido pela deusa Atena, sua protetora incondicional. A reação de Telêmaco, deixa clara , além do espanto, a possibilidade de uma interação entre homem e divindade.

 

Ou ainda neste exemplo, retirado da Ilíada:

 

“Homem de grande valor, de que estirpe mortal te originas? Ainda não tive ocasião de ver-te nas batalhas, que os homens glórias concedem; no entanto os demais em coragem superas, pois vens agora, enfrentar minha lança de sombra comprida. Os que se medem comigo são filhos de pais sem ventura. Mas se um dos deuses tu fores, que moram no Olimpo vastíssimo, sabe contra os eternos não quero em combate medir-me.”. (HOMERO, s.d., p.120).

 

Recorda-se que todos os deuses, fossem gregos ou latinos, protegiam cidades e lugarejos. Também representavam e protegiam profissões e possuíam oráculos famosos na Antiguidade. Na verdade, ainda que o cristianismo tivesse desferido seus golpes no paganismo, a crença nos deuses, estava bem arraigada no imaginário daquela coletividade e a questão da assimilação das culturas e de seus aspectos religiosos, já era vista como item preocupante, dada sua facilidade. No contexto encontrado e relatado, no início da Bíblia Judaica, segundo as recomendações atribuídas a Moisés, no Pentateuco, lemos:

 

“e vistes as suas abominações e os seus ídolos, o pau e a pedra, a prata e o ouro que havia entre eles, para que entre vós não haja homem, nem mulher, nem família, nem tribo, cujo coração hoje se desvie do Senhor nosso Deus, e vá servir aos deuses destas nações; para que entre vós não haja raiz de fel e absinto” (ALMEIDA, 1987, p.244).

 

 

 

A transposição entre deuses e santos, se fez de forma não tão lenta como se pode imaginar, uma vez que o culto aos santos martirizados com muitos elementos das culturas greco-latinas se fez presente na igreja ainda nos primeiros séculos. Como os deuses, os santos passam a alcançar todos os aspectos da vida ordinária; cuidam de elementos diários os mais simples e as semelhanças se acentuam. Assim se refere Afonso de Valdez, citado por Atienza,

 

“temos repartido entre nossos santos os trabalhos que tinham os deuses gentios. Em lugar de Marte, sucederam São Tiago e São Jorge; em lugar de Netuno, São Telmo; em lugar de Baco, São Martin; em lugar de Vênus, Madalena. As funções de Esculápio repartimos entre muitos: São Cosme e São Damião, se incumbem das enfermidades comuns; São Roque e São Sebastião, da pestilência”. (ob. cit. p. 12).

 

O culto aos deuses era milenar e ainda que o cristianismo traga idéias que confrontam modelos de crenças, e de confronto com os outros cultos com os quais convivia, estas crenças não conseguiriam ser simplesmente descartadas. Há notáveis semelhanças entre os deuses gregos e os santos cristãos e como recorda Nichols,

 

“para esta gente que estava acostumada aos deuses de suas cidades e seus lugares sagrados e que não estava bastante cristianizada, a veneração dos santos transformou-se rapidamente em adoração. Os santos passaram a ser considerados como pequenas divindades cuja intercessão era valiosa diante de Deus”. (ob. cit. p.51).

 

 

Assim a sensação imediata que se tem é que de fato, apesar dos confrontos referidos, elementos dos mitos greco-latinos passaram ao culto cristão de forma significativa, ainda que certamente muitos outros traços tenham sido rejeitados, modificados e excluídos nos séculos que se seguiram. Como se viu, ao lado da assimilação que a religião grega e seus mitos promoveram com o cristianismo, houve um combate tenaz por parte de boa parte de seus iniciadores, para que a prática dos ritos fosse extirpada, colocando a religião latina e grega, numa ponta onde se situaria o mal, o engano, o engodo e não é estranho para o estudo da Mitologia, tal visão por parte destes apologetas cristãos dos primeiros períodos.

 

Somente na era contemporânea a partir do final de século XIX e início do século XX, com um estudo mais profundo, o mito começa a ser visto com o tema que se mostra, revelando assim paulatinamente a presença do seu imaginário, no homem e de igual forma, mesclado e mimetizado em suas crenças mais imediatas ou internas, revelando que estas estavam como dados além de um simples relato de contos, onde eram vistos como ingenuidade ou uma demonização das religiões das culturas não cristãs. 

O mito continua vivíssimo, não como elemento pejorativo, como ainda o senso comum acredita, mas como uma necessidade coletiva e intensa; encontra-se presente na sociedade cristã e atuante como foi comentado, em inúmeros elementos do cristianismo, uma vez que o próprio cristianismo não poderia respirar sem seu mito. Assim as semelhanças são mais que semelhanças, mas não apenas dentro da expressão católica romana do cristianismo. Ainda que as distâncias entre o mito grego e o cristianismo sejam significativas, as semelhanças demonstram de que terão fôlego para continuar enfrentando mais um bom período secular, particularmente na expressão das crenças populares.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

ALMEIDA, João Ferreira (trad.). Bíblia Sagrada. SBB, Brasília, 1969.

ARMSTRONG, Karen. Uma historia de Deus. Companhia de Bolso: São Paulo, 2008.

ATIENZA, Juan G. Os Santos pagãos. Ícone editora: São Paulo, 1995.

BETTENSON, H. Documentos da igreja cristã. JUERP: Rio de Janeiro, 1983.

BULLFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. História Viva Mitologia. vol.I. Duetto Editorial: São Paulo, s.d.

COSTA, Neusa Meirelles. Misticismo, magia e a (dês)conhecida religião do outro – o Candomblé. Estudos de Religião, ano I, nº 1. Imprensa Medotista: São Bernardo do Campo, 1985.

DAVIS, John D. Dicionário da bíblia. Casa Publicadora Batista: Rio de Janeiro, 1977.

HILLGARTH, J.N. Cristianismo e paganismo: a conversão da europa ocidental. Madras: São Paulo, 2004.

HOMERO. Ilíada. Ediouro: Rio de Janeiro, s.d.

________ . Odisséia. Nova Cultural: São Paulo, 2003.

MACHADO, Oswaldo Gomes. A Santidade ontem e hoje. AM edições: São Paulo, 1995.

NICHOLS, Robert Hastings. História da igreja cristã. Casa Editora Presbiteriana: São Paulo, 1981.

SOLIMEO, Plínio Maria. Hagiografia – Vida dos santos. Frente Universitária de Lepanto, Brasilia, 2008. Disponível em: http://www.lepanto.com.br/index.cfm

 

VIRGILIO. Eneida. Nova Cultural: São Paulo, 2003.

WILSON, A.N. Jesus, o maior homem do mundo. Prestigio Editorial: Rio de Janeiro, 2007.

WOODWARD, Keneth L. A Fábrica de santos. Editora Siciliano: São Paulo, 1992.

 

 

 

 

 

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