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Dominação e ideologia no mito grego: Um breve comentario sobre hera – A deusa dos amores legítimos

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DOMINAÇÃO E IDEOLOGIA NO MITO GREGO:

UM BREVE COMENTARIO SOBRE HERA –

A DEUSA DOS AMORES LEGÍTIMOS

 

 

Por

 

Sergio Paulo de Melo Feitosa*

 

 

 

 

 

 

“Caiu do amanhecer ao meio-dia,

Do meio dia até a noite vir.

Um dia inteiro de verão, com o sol

Posto, do zênite caiu, tal como

Uma estrela cadente, na ilha egéia

De Lenos.”

 

Milton

Paraíso Perdido

 

 

 

 

 

 

Uma deusa. Hera, a consorte real. Mãe dos deuses e senhora do Olimpo, deusa dos amores legítimos. Estes títulos, apesar de poucos, tornam impressionante a figura da deusa Hera, filha de Cronos e Réia, casada com o seu irmão, o todo poderoso Zeus. Se o relato sobre seu divino esposo tem diversos sabores, promovendo uma visão múltipla da grande divindade grega, os contos mitológicos, onde ela é comentada, quase imediatamente ligam-na a uma intolerância ou rigidez moral, se é possível focalizar em sua figura, estes conteúdos psicológicos, moldando seu mitologema.

A citação encontrada na obra de Milton e referida por Bulfinch acima, diz respeito ao episódio onde após uma gestação, acaba trazendo ao mundo dos deuses e dos homens, o disforme deus Hefestos; logo após o nascimento, a divindade é arremessada pelos ares, uma vez que a fealdade do deus-menino agride a deusa – o seu marido, Zeus, havia gerado antes, a numinosa deusa da sabedoria, Atená e conforme diz Solnik, “ao sair do crânio de Zeus, a deusa já envergava brilhante armadura – representação dos meteoros e dos fenômenos luminosos – e brandia a lança – materialização do raio que ilumina as alturas etéreas e anuncia a tempestade”. (SOLNIK, 1973, p.146).  Hefestos, ao contrario de Atená, havia nascido feio e disforme e a violência da mãe, ao arremessá-lo, o deixará coxo.

Se os mitos serviam de modelo de conduta, como concordam uma grande parcela de pesquisadores, e se o modelo de conduta da deusa Hera, serviria inclusive para um parâmetro social, percebe-se que seu mito, pode ter cumprido destacados papéis ideológicos, onde a divindade demonstraria ser uma típica representante do poderio masculino sobre a imagem feminina, de uma imagem que atravessa os séculos: a mulher perseguidora intransigente, de uma arguta e perigosa espiã, para manter o relacionamento conjugal dentro dos parâmetros sociais aceitáveis e para que tal aconteça, praticando atos reprováveis, antiéticos. Certamente inserida dentro de uma cultura patriarcal, em suas remotas formações, onde o poderio masculino se fazia valer, também pelo controle da descendência, os relatos do mito de Hera, adequam-se perfeitamente a um modelo feminino subalterno, que se torna comum em culturas com tais marcas. Recorda Vernant, que,

 

“o mito não é uma vaga expressão de sentimentos individualizados ou de emoções populares: é um sistema simbólico, institucionalizado, uma conduta verbal codificada, veiculando como a língua, maneiras de classificar, de coordenar, de agrupar e contrapor os fatos, de sentir ao mesmo tempo semelhanças e dissemelhanças; em suma, de organizar a experiência”. (VERNANT, 1992, p.206).

 

 

Assim o seu mito ainda que possua um certo lado lírico e belo desde sua problemática origem (segundo o pesquisador Feist, quando Zeus resgata os irmãos retidos pelo pai Cronos, que os engolia logo após ao nascerem, com receio de perder o controle do Cosmos, “apenas Juno (Hera) ali, não estava, pois, como ele próprio, também fora poupada”. (FEIST, 1973, p. 56), ou como no caso do episódio com Io, onde um dos personagens envolvidos, Argos, mensageiro de Hera, após sua morte, tem os olhos transportados para as penas do pavão, ave, aliás, que era representativa da deusa, e que inspirou gerações de escritores e outros artistas, neste mito de origem, conforme pode-se ler em Bulfinch, (ob. cit. p.41), outros relatos possuem o lado ideológico que é preciso recordar e citar. Alguns comentadores, percebe-se, referendam um excessivo elemento romântico, como se a mitologia estivesse num certo “Olimpo” social, acima dos conflitos humanos, esquecendo que forneceu e fornece inúmeros conteúdos de reverberação social, política e certamente religiosa, que podem servir à muitos motivos e agentes.

O faro de Hera, diante das aventuras extraconjugais do marido, encontradas em alguns escritos, beira ao conteúdo anedótico, como se pode lembrar ainda no mesmo episódio da jovem Io. A frase “ou muito me engano ou estou sendo enganada”, remete à divindade possivelmente, a mais humana das condições de uma mulher à sombra de uma imagem de poder patriarcal e masculino, que Zeus representava e que do alto dele, naturalmente transgredia, ainda que usando algumas vezes de artifícios maravilhosos para alcançar seu desejo pelas deusas e mulheres. Como escreve Fiest, para Zeus, “mais importante que ser fiel à Hera (Juno), sua esposa e irmã, é exercer a paternidade, seja com deusas, seja com as mulheres mortais”. (ob. cit. p. 51). De fato, recordando esta afirmação do pesquisador, desconhece-se qualquer relato extraconjugal da deusa.

Se o mito grego ainda remete ao momento social, atribuindo ao homem ou ao deus, além de uma moral guerreira, uma liberdade plena, à mulher, os papéis delimitados são circunscritos por motivos que aparentam oscilar da fidelidade ao orgulho matrono, como se pode ler exemplarmente no mito de Niobe (ob.cit. p.137 – 140). De fato, o ambiente grego, oriundo de uma complexidade de conflitos, desde a chegada dos grupos na idade do bronze, prefigura o poder masculino com todos os seus elementos e como comenta Vernant citando uma afirmação de Demóstenes, sobre a presença das concubinas na formação das famílias gregas, ali se lê: “temos as cortesãs para o prazer; as concubinas para os cuidados de todo o dia (...); as esposas, para ter filhos legítimos (...) e como guardiãs fiéis (o grifo é nosso) das coisas da casa”. (VERNANT apud DEMÓSTENES, 1993, p. 51).

A deusa Hera, aparentemente sucumbe ao papel de uma insistente divindade, cuja motivação principal, era obstacular as investidas do esposo, que cumpria perfeitamente a condição de pai dos homens e dos deuses. E acaba engrossando uma lista longa de deusas e mortais, que são perseguidoras da ação geradora masculina, como se pode recordar o caso de Medéia (ob. cit. p. 164-168) e Clitemnestra (ob. cit. p. 278-279), duas significativas mulheres encontradas no mito grego, entre tantas que podem ser referidas.

 

 

 

 

 

 

“As funções primárias da mitologia e dos mitos sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se àquelas outras fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás”.

 

Joseph Campbell

O Herói de Mil Faces

 

 

 

 

 

 

Observando as construções culturais que os gregos legaram à humanidade, encontra-se a inevitável mitologia. Praticamente a cultura grega não pode ser compreendida sem o estudo que no mínimo sistematize a visão que eles tinham da ação do divino em sua vida quotidiana; Os deuses, podiam ser encontrados em todos os compartimentos da vida; estavam em tudo, não necessariamente como presença benéfica, uma vez que à exemplo dos homens, sucumbiam igualmente à violência e eram inúmeras vezes nefastos para a sociedade.

Tão significativa torna-se esta condição, que assim recorda Vernant sobre o estudo da mitologia:

 

“no inicio o principal obstáculo epistemológico de análise rigorosa dos mitos gregos, terá sido mais sua grande proximidade, sua presença ainda excessivamente material no universo mental do Ocidente, do que estranheza daqueles mitos”. (VERNANT, 1992, p. 190).

 

 

No imaginário religioso das culturas gregas e latinas, os deuses participavam do mundo humano, inseridos na vida ordinária, tornando-se protetores maiores e seus condutores, procurando realizar em suas ações, o equilíbrio necessário, ou apenas interagindo com os homens, num convívio e certa forma vista como natural, como se pode observar em inúmeros exemplos de sua literatura mais significativa, exemplarmente a Ilíada e a Odisséia.

Como recorda um famoso episódio da Odisséia, quando o herói finalmente se dá a conhecer ao seu filho Telêmaco, assim faz o poeta o jovem herói exclamar:

 

“Estrangeiro, mostra-te agora de aspecto diferente de há pouco; tens outra indumentária, diferente é a cor de tua pele. És sem duvida, um dos deuses moradores do vasto céu”. (HOMERO, 2003, p.211).

Os deuses podiam se revelar em todos os lugares e situações.

O mundo grego ainda que tenha passado por momentos bem diferenciados, estava influenciado sobre a noção da ação divina em todos os momentos sociais e possuía um panteão significativo, onde os deuses naturalmente intervinham e se comunicavam direta ou indiretamente com os mortais. Comentando o caso do oráculo de Delfos, possivelmente o mais famoso na antiguidade e ligado ao culto do deus Apolo, assim cita Junito: “nas grandes lutas que sempre enxovalharam a bandeira da unidade política da Grécia, esta procurou manter a qualquer preço a inviolabilidade de Delfos”. (BRANDÃO, 1992, p. 100).

Entre os gregos, o mito, a exemplo de outras culturas inseria-se também como modelo de conduta. Mas se o deus estava em todo lugar da atividade humana e sendo seu inspirador, não estava presente obviamente apenas nas situações positivas, mas em todas. Diferente da noção da cultura judaico-cristã, que considerava sua divindade além de toda-poderosa, perfeita, a moral do deus grego, era uma expressão maior da moral humana e esta, se mostrou complexa e eivada de contradições. É conhecida a posição de Xenófanes, citado por Sexto Empírico que afirma: “tudo aos deuses atribuíram Homero e Hesíodo, tudo quanto entre os homens merece repulsa e censura: roubo, adultério e fraude mútua”. (SEXTO EMPIRICO apud XENÓFANES, 1996, p.70). Mas apesar da critica deste, eram estes os deuses ordinários gregos: exatamente como eram os homens – sujeitos a todo tipo de influencia e sentimentos.

Abarcando as atividades da cultura argiva, os gregos concentraram suas crenças em um panteão de 12 deuses principais, denominados de deuses olímpicos. Vencedores de uma mítica luta contra seus parentes divinos, os Titãs e comandados pelo deus Zeus, estas divindades estarão presentes na cultura grega, movendo-a desde as condições de paz, até os momentos de guerra. Os Titãs foram devidamente vencidos e do combate, surge a figura onipotente do filho de Cronos e Réia e conforme lê-se em Brandão, “a luta gigantesca durou 10 anos. Por fim, venceu o futuro grande soberano do Olimpo. Cronos e os Titãs foram encarcerados no Tártaro”. (ob. cit. p. 255).

Zeus passa a se designar após a luta, o senhor do Olimpo e dos céus, controla o equilíbrio universal, mas também é o deus dos relâmpagos e das tempestades, entre outros atributos. Seus dois irmãos, deuses masculinos, Posidon e Hades, respectivamente após a refrega, controlam os mares e o mundo dos mortos. Suas irmãs, em número de três, Deméter, Héstia e Hera, serão designadas para o culto das sementes, da família e dos amores legítimos, sendo que esta última, a deusa Hera, é o motivo de estudo particular nesta monografia, torna-se em casamento, a rainha do Olimpo.

Apesar de Zeus, como foi citado anteriormente, ser o deus do equilíbrio e da harmonia cósmica, é notório que em seu casamento sagrado, hierógamos, sua companheira e consorte, a deusa Hera, seja praticamente o elemento oposto. O mito a relata com traços peculiares de ciúme, intolerância e vaidade, que denotam como a visão sobre o mundo feminino que os gregos trazem, é capciosa. É perseguidora tenaz do marido divino, bem como de seus amores e seus filhos, fora do casamento, sendo o mais recordado, o quanto fez penar Héracles, o maior herói mitológico grego e filho de Zeus, com a princesa tebana Alcmena. Recorda Campbell, que “Héracles estrangulou uma serpente que fora enviada ao seu berço pela deusa Hera”. (CAMPBELL, 1993, p. 317). Uma verdadeira madrasta de contos de fada.

Antes de seu casamento com Hera, Zeus, teve duas outras uniões. A primeira com a deusa Métis, da qual nasceu a deusa da sabedoria, Atená, conforme se lê em Brandão (ob. cit. p.24) e o segundo, com Têmis, onde será o pai das Horas, das Moiras (o destino personificado) e a deusa Astréia. (ob. cit. p. 33). O que vale recordar é que os filhos destas uniões em momento algum foram perseguidos pela ciumenta esposa.

Com o deus maior, Hera teve três filhos: o deus da guerra, Ares, a deusa Hebe, deusa da juventude e a deusa Ilítia, a divindade dos partos e sem a participação do dele, o deus do fogo e da forja, Hefestos, ainda que os poetas Homero e Hesíodo não sejam concordantes neste ponto. Segundo Hesíodo, citado por Brandão, Hefestos, veio ao mundo sem “a união do amor” (ob. cit. p. 44). O mais significativo neste relato, é que se Zeus, foi capaz de engendrar a partir de suas meninges, a deusa da sabedoria e da guerra justa, o próprio símbolo da maior cidade grega, Atenas, Hera, ao tentar o mesmo, inclusive num ato de rebeldia contra o esposo, gerou o disforme deus Hefestos. Segundo ainda o pesquisador Junito, “humilhada com a fealdade e a deformação do filho, Hera o lançou do alto do Olimpo”. (ob. cit. p .44).

Convém recordar neste momento, que a formação grega, foi uma formação bélica e como comenta Vernant, “para os gregos da época clássica, a guerra é natural”. (VERNANT, 1992, p .24) e ainda afirma Marrou, “a cultura grega foi, originalmente, privilégio de uma aristocracia de guerreiros”. (MARROU, 1975, p.20). É considerável numa cultura que tenha se constituído diante do elemento belicoso, e no caso dos gregos, notável, é que tenham não um deus da guerra, mas dois, que a força física seja a predominante e a referida. De fato, ao ler-se os textos de sua mitologia, a agonia, a luta, está em muitos relatos, sendo a guerra inclusive motor de seus dois mais recordados poemas, A Ilíada e a Odisséia. Segundo Castro, o dramaturgo Ésquilo, vencedor de aproximadamente 50 concursos dramáticos e cognominado “pai da Tragédia” pelos atenienses, assim escreveu para compor seu epitáfio:

 

“sob esta pedra jaz Ésquilo, filho de Euforião. Nascido em Elêusis, faleceu nas férteis planícies de Gela. O bosque famosíssimo, o bosque de Maratona, e os persas de agitada cabeleira dirão se foi valente: eles o viram”. (CASTRO, 1973, p. 778).

 

Nenhuma palavra sobre sua arte e sobre o teatro. Ressaltou seu papel de guerreiro.

Cumpre neste momento perguntar: qual o papel da mulher em tal sociedade?

Recorda-nos Marrou, que, “a atração efetiva parece-me uma constante das sociedades guerreiras, nas quais um grupo de homens tende a encerrar-se em si mesmo”. (ob. cit. p. 53) e continua o pesquisador afirmando que “a exclusão material das mulheres e o total retraimento destas acarretam, sempre, uma ofensiva do amor masculino”. (ob.cit. p. 53). Como recorda Troch, “na maioria dos casos, definições do sujeito humano são androcêntricas e compreendem a existência das mulheres como existência derivada (...)”.(TROCH, 2007, p. 37).

Assim, se as mulheres estavam alijadas de uma participação mais efetiva da convivência e realização de um quotidiano na sociedade grega, parece quem em muitos casos, restou a elas e nisto o mito pode ajudar tal compreensão, normalmente, um modelo de perfídia, de conspiração ou de passividade ao mundo masculino. Recordando o texto grego de Eurípides, Hipólito, assim o dramaturgo deixa sair dos lábios de Fedra, diante do amor pelo enteado e por ele rejeitado: “sabia que o pecado é desonroso e que a moléstia nada tem de nobre; ademais, tinha plena consciência de que por ser mulher (o grifo é nosso), seria objeto de desprezo geral”. (EURÍPIDES, S.D. p. 105).

A deusa Hera, também é preciso comentar, ainda que tenha como filha a deusa dos partos e nascimentos, como se viu anteriormente, em nenhum evento mitológico recordado, a chama para ajudar as parturientes; pelo contrário, quando Ilítia entra em cena, entra para prolongar as dores dos nascimentos. No caso citado por Junito, no nascimento de Apolo e Artemis, Ilítia, deixou a rival da mãe, a deusa Leto que, “contorcendo-se em dores, esperou nove dias e nove noites pelo nascimento dos gêmeos”. (ob. cit. p. 58). E segundo ainda este autor, tão impressionada ficou a deusa Ártemis, “vendo os sofrimentos por que passara sua mãe, (...), que jurou jamais casar”.(ob. cit. p. 58). Significativa é a afirmação também referida por Junito, que a deusa da caça, apesar de seu “caráter virginal da deusa não a impedia de valer também a fecundidade feminina. Deusa dos partos, eram-lhe consagradas em Bráuron, as vestes das que faleciam ao dar a luz”. (ob. cit. p. 69).

Ainda que o mito seja praticamente silencioso sobre a origem de Hera e os relatos de sua infância, ao contrário de Zeus, os relatos posteriores à titanomaquia e a partir de seu casamento, são inúmeros. A divina consorte de Zeus, participa segundo os relatos clássicos da literatura grega, em inúmeros momentos fundamentais da mitologia, e de modo a não deixar dúvidas sobre seu poder. Como se lê em Commelin,

 

“dizia-se que tinha um cuidado particular pelos atavios e ornatos das mulheres: é por isto que nas estátuas, os seus cabelos apareciam tão elegantemente arranjados. Presidia as núpcias, aos casamentos e aos partos. Então, segundo o caso era invocada sob os nomes de Pronuba, Juga, Lucina (...) também presidia à moeda, a que se deu o nome de Moneta”. (COMMELIN, S.D. p. 37).

 

 

Segundo Bulfinch, envolve-se diretamente no caso de rivais, como Io e Calisto, (BULFINCH, 1999, p.39-44). Persegue a deusa Latona, a mãe dos deuses Ártemis e Apolo, (ob. cit. p. 48). Como foi referido anteriormente, perseguiu o herói Héracles, causando a realização dos 12 trabalhos, como ato de purgação, pois a deusa provocou indiretamente a loucura do herói, fato que levou ao massacre involuntário de toda sua família, (ob. cit. p. 176). Perseguiu a princesa Sêmele, mãe do deus Dioniso (ob. cit. p. 196). Esteve diretamente envolvida na escolha do príncipe Páris, por ser a deusa mais bela, entre as deusas Afrodite e Atená, sendo ao fim do concurso, preterida, junto com a deusa da sabedoria e por esta razão, persegue sem cessar os troianos, durante a dura campanha entre estes e os gregos (ob. cit. p. 254); é a responsável principal pelo tumulto levado aos guerreiros sobreviventes da guerra de Tróia ao chegarem na península itálica, o que provoca o conflito entre os latinos e os troianos sobreviventes, liderados por Enéias (ob. cit. p. 328).

Pode-se recordar ainda que a entrada da figura feminina no mito, a partir do relato de Hesíodo é pintada com cores não muito favoráveis. Pandora, a primeira mulher, ainda que tendo sido criada pelos deuses, traz ao mundo, uma coleção inimaginável de problemas, numa caixa, além de aparentemente ser destituída de uma reflexão profunda e como escreve Vernant,

 

“(...) a palavra articulada que Zeus lhe conferiu como aos homens não lhe serve para dizer o que é, para transmitir a outrem a verdade, e sim, para esconder o verdadeiro do falso, para dar existência, na forma de palavras, ao que não existe, para melhor enganar o espírito de seus parceiros masculinos”. (ob. cit. p. 169).

 

Certamente dada a complexidade dos conteúdos mitológicos, não se encontram apenas um grande modelo de conduta, mas pela posição que Hera possuía, como senhora do Olimpo, os relatos ideológicos do mito tornam-se dignos de nota. Alias, as figuras femininas encontradas no monte divino, quando não rejeitam o aspecto masculino, lhes são totalmente cúmplices, podendo encontrar neste exemplo, as deusas Ártemis e Atená. No caso de Hera, o que é também exemplar, é que é pouco afeita aos filhos – uma maternidade distante, indo ao paroxismo, como no caso do arremesso do filho Hefestos pelos ares.

Se o mito judaico, aparentemente desconhece uma consorte para sua maior divindade, quando cita o aspecto da mulher desde as primeiras páginas de seu livro sagrado, o atribui sem grande inspiração principalmente ao papel materno, onde uma etimologia lhe faz juz: “E chamou Adão o nome de sua mulher Eva, porquanto ela era a mãe de todos os viventes”.(ALMEIDA, 1995, p. 5). No caso do mito grego, como se percebe, há um rico elenco de deusas e mulheres que representam o modelo feminino neste ambiente aguerrido e conturbado da antiguidade; mas se aos homens era facultado o poder e alguns podem recordar o caso da cidade de Esparta, onde homens e mulheres eram tidos por iguais, o mesmo não se pode dizer do restante da Grécia. Recordando a ação mais popular dentre os gregos como o esporte, assim refere Marrou comentando sobre os espartanos:

 

“o esporte não está reservado aos homens; o atletismo feminino sobre o qual Plutarco se deterá tão prazerosamente (...) é atestado desde a primeira metade do sexto século por encantadoras estatuetas que representam as moças em plena corrida, levantando com uma das mãos a barra da saia – curta embora – de sua túnica de esporte”. (ob. cit. p. 37).

 

Mas esta é Esparta, estranhamente avessa inclusive a modernidades no mundo grego. O restante da península, pelo que se pode observar, manterá a mulher dentro dos limites inclusive da maternidade.

Finalmente, a deusa Hera poderia se inserir dentro de um contexto mítico de uma grande mãe, a exemplo de outras divindades que se relacionam com seu mito, como o culto de Réia, sua mãe e de Deméter, sua irmã e segundo afirma Commelin, seu “culto era quase tão solene e espalhado como o de Júpiter. (...) era principalmente em Argos, Samos e Cartago que era venerada”.(ob. cit. p. 37). Mas isto também não é encontrado em nenhuma linha mitológica. Campbell, recordando o mito das deusas-mães, assim comenta: “houve sistemas religiosos em que a mãe era o principal progenitor, a fonte. A mãe, na verdade, é um progenitor mais próximo que o pai, porque o bebê nasce da mãe e o primeiro contato que experimenta é com a mãe. (CAMPBELL, 1995, p. 175).

Mas ao lado destes cultos matrilineares, pode-se indagar a quem de fato, o culto da deusa atingiria. Uma figura materna, sem praticamente o ser; uma companheira, que normalmente é um estorvo; enfim, uma divindade temida. Mas indiscutível como poderio ao lado de seu esposo.

Apesar de todas as suas aventuras, era ao lado de Hera que Zeus, passava suas noites. Nunca abandonou o Olimpo, após este hierógamo, ao contrário do que aconteceu com os dois anteriormente citados. Neste aspecto também uma indagação pode chegar a este estudo: de fato, a relação do mito do grande Zeus e de sua esposa, em que abalavam o Olimpo com suas discussões, só deixaria para Hera, seu conteúdo de esposa submissa, porém ciumenta e rancorosa com as rivais? Onde porventura poder-se-ia colocar as permissividades do divino esposo, quando ela tenazmente perseguia as suas amantes e seus filhos fora deste casamento?

Se por um lado pode-se ver um traço desabonador que o mito trata a divina consorte, o que se pode dizer desta relação entre Zeus, que tudo podia e nada fazia para evitar os percalços das amantes, que ele próprio atraia para o ódio de Hera? Talvez Zeus, estivesse também a serviço de uma grande engrenagem que alimentava a dominação e a ideologia.

 

* Sergio Paulo de Melo Feitosa é Psicólogo Clínico, Mestrando em Ciências da Religião e Professor do Instituto Sapientia – Fco. Beltrão.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALMEIDA, João Ferreira (trad.). Bíblia Sagrada. Sociedade Bíblica do Brasil: Barueri, 1995.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. II. Vozes: Petrópolis, 1992.

BRUNA, Jaime. (trad.). Teatro Grego – Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes. Cultrix: São Paulo, S.D.

BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Ediouro: Rio de Janeiro, 1999.

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Cultrix: São Paulo, 1993.

_________________. O Poder do Mito. Editora Palas Athena: São Paulo, 1995.

CASTRO, Consuelo de. (editor). Mitologia. Teatro Grego – a Tragédia. Vol. 48. Abril Cultural: São Paulo, 1973.

COMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. Editora Tecnoprint: Rio de Janeiro, s.d.

FIEST, Hildegard. Mitologia. Júpiter. Vol. 4. Abril Cultural: São Paulo, 1973.

HOMERO. Odisséia. Nova Cultural: São Paulo, 2003.

MARROU, Henri-Irénée. História da Educação na Antiguidade. E.P.U: São Paulo, 1975.

SOLNIK, Alexandre. Mitologia. Minerva. Vol. 5. Abril Cultural: São Paulo, 1973.

TROCH, Lieve. (org.). Passos com Paixão. Uma Teologia do Dia-a-Dia. Nhanduti Editora: São Bernardo do Campo, 2007.

VERNANT, Jean Pierre. Mito e Sociedade na Grécia Antiga. José Olympio: Rio de Janeiro, 1992.

XENÓFANES. Os Pré-Socráticos. Abril Cultural: São Paulo, 2004.

 

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